quarta-feira, 18 de agosto de 2010

PELADO CULIAO

Bem que poderiamos encontrar aquele careca filho da puta! 3 litros de cerveja e um pouco de reggae era apenas o que buscavamos. A noite não nos pertencia, e o unico que nos restava era caminhar cinco quadras rumo ao unico bar do centro de Buenos Aires que comercializava cerveja de litro para levar .

 Aureliano sugeriu que tomassemos a primeira Quilmes sentados na calçada. O frio era de matar e não pude contrariar aquela amigavel dupla de chilenos. Ao nosso lado, o careca filho da puta, tomava cerveja e cantava punk rock junto a seu compadre violeiro. Com a viola na mão e espanhol indecifravel, pudemos notar que aquele hippie chapado tocava um classico do Dos Minutos. "Ya nos sos igual, ya no sos igual, sos un vigilante de la federal". Ao escutar as nossas vozes, a dupla parou o cancioneiro punk e perguntou se tocavamos. Aureliano não titubeou. Em 10 minutos mandou todo o repertorio que sabia. Dos minutos e La Polla Records sonava pela calle Florida, enquanto minha vontade era de retornar ao hotel, fumar uma tronca e relaxar. Eis que o careca maldito nos perguntou:
- Fuman ustedes??.
-Solo porros, respondi.


Foi o bastante para que  fizesse a oferta. "Si quieren puedo buscar, pero viene uno solo". Aureliano, deixou a viola e postulou para ser o heroi da noite. Fizemos uma vaquinha e conseguimos um punhado de pesos argentinos.

O tempo passava e nada dos dois. O hippie não parava de falar e so conseguia entender metade do que dizia. Percebi que o castelhano, misturado com alcool, demencia e outros toxicos, poderia se transformar em uma espécie de mandarim oriundo do latim. Olhei para Chico e naquele instante, tudo o que queriamos era quebrar o violao na cabeça do hippie e ir atras de Aureliano. Eis que na esquina de Maipu com Lavalle surge Aureliano com um ar de "que wueon!que wueon". Não foi preciso dizer nada, sabia o que havia acontecido. O Careca deixou nosso camarada dentro de um puteiro fuleiro enquanto dava no pé com nossa verba, erva e pormenores.

O certo é que no dia seguinte viveriamos a primeira semifinal do Mundial. Nossos corações apontavam para o gélido Rio de La Plata. O lado oriental do famoso rio se vestia de celeste para apoiar o unico representante sulamericano por terras africanas. Com a 2 do Lugano vestida, atravessei a calle Maipú para comprar o diario Olé e um litro de cerveja. Devidamente trajado, caminhei 9 quadras rumo a Plaza San Martin. Na centrica praça portenha, se juntaram aproximadamente 1.000 uruguaios para ver o historico cotejo diante do telão colocado pela prefeitura de Buenos Aires. Com mate, bumbos e bandeiras, os uruguaios fizeram da Plaza San Martin um peculiar reduto charrua. O jogo contra Gana foi historico, Contudo, tres de seus principais jogadores estavam fora de batalha: Luis Suarez, pela inesquecivel Mano de Dios, Diego Lugano por lesao muscular e Jorge Fucile suspenso pelo segundo amarelo.

Oscar Tabarez optou por Martin Caceres como lateral esquerdo, e em uma zaga composta por Godin e Victorino. O meio campo uruguaio ganhou ainda mais proteção com a entrada de Gargano - ao lado de Ruso Perez e Arevalo Rios na contençao. Alvaro Pereira, pela esquerda, e Edison Cavani, pela direita, teriam a missão de acompanhar os laterais holandeses - Van Bronckhorst e Boulahrouz - no primeiro combate, enquanto Diego Forlan ficaria livre para armar - e definir - as jogadas de ataque.

A Holanda tambem tinha problemas: Van Der Wiel suspenso pelo segundo amarelo deu lugar ao improvisado zagueiro Boulahrouz na lateral direita. De Jong - também suspenso - foi substituido por De Zeeuw - este que formaria a dupla de volantes ao lado de Van Bommel. O jogo começou parelho e o "Soy celeste, celeste yo soy" era hit da vez na Plaza San Martin. Eis que Van Bronckhorst arrancou pela esquerda e acertou um chute de playstation no angulo superior de Muslera: 1x0 e festa da bela e minoritaria torcida holandesa. Mesmo em desvantagem, o conjunto charrua seguia dando peleja. Aos 40 minutos, em um singular ataque, Forlan dominou entre tres europeus
, ajeitou para a lesionada perna canhota e com um belo tiro enganou Stekelenburg, que desajeitado, nao conseguiu evitar o tento de empate: 1 x 1 e delirio uruguaio na Plaza San Martin.

O intervalo foi uma verdadeira aula sobre cultura charrua: mate, candombe e maconha exalavam com um sabor de esperança por voltar a disputar uma final de Copa do Mundo após 60 anos de hiato. Diego Forlan já era um procer e um busto em plena rambla de Montevideu o aguardava para sempre. O sonho era realidade, Obdulio Varella, Ghigia e Schiafinno já poderiam descansar em paz, a celeste estava de volta graças a Dom Diego Forlan. Nem mesmo os gols de Sneijder e Robben no segundo tempo, poderiam tirar os meritos dessa historica campanha. Maxi Pereira de canhota, ainda anotou o desconto sobre o final, porém, a vaga na final tinha dono. A não tão brilhante laranja mecanica, graças a seu futebol duro e as individualidades - de Sneijder e Robben - chegava a sua terceira final de Copa do Mundo.

Sob aplausos, choros e uma comoção de arrepiar pentelho de cadaver em qualquer IML De Montevideu, parti da Plaza San Martin rumo ao Hostel para encontrar los wueones. Aureliano já me esperava. Fumamos a última ponta de Chico e partimos rumo a um encontro cervezal. Chico havia conseguido uma maconha especial. Seu amigo de Quilmes tinha acesso a cogollos e a loucura se instalou em nossas mentes de forma lisergica.

A Avenida Corrientes - aquela que algum tangueiro disse que não dorme nunca - nos esperava como sempre. Entramos em um bar pulguento, compramos a tosca cerveja Iguana e subimos para o segundo piso.

-"Pelado Culiao... como queria encontrarlo" disse Aureliano.


Eis que surge aos risos dois sujeitos aparentemente embrigados. De barba e trajado com a celeste uruguaia, Gaston nos comprimentou com a cabeça, possivelmente orgulhoso pela façanha de seu selecionado naquele mundial. Notando nosso sotaque, perguntou: - "de donde son ustedes?".

Incredulo, sentou a mesa, por ora, repleta de birras junto a dois chilenos e um desajeitado brazuca. No entanto, quando a conversa transcorria de forma agradavel vemos sair do banheiro o seu companheiro. Aquela cicatriz do lado do olho direito, e sua careca lustrosa não nos deixava mentir. Era um sinal dos deuses, uma luz vertiginosa, mas o fato é que o filho da puta estava diante de nos.

Em casa de vagabundo malandro não pede emprego. Eis que surpreso pela coincidencia do destino,  Gaston nos pergunta.

- Viste a Caceres como jugo?



FLACO



FLACO