terça-feira, 21 de junho de 2011

EXISTE VIDA APÓS O RIVER?

Por Felipe Bigliazzi

Parecia impossível mas aconteceu. O River Plate tocou mesmo o fundo do poço. Por lá passaram Diego Simeone, Leonardo Astrada, Ángel Cappa...mas ninguém conseguiu dar rumo ao clube mais vencedor da Argentina. José Maria Aguilar passou o bastão, contudo sua nefasta gestão - que levou o clube de Nuñez a uma grave crise financeira - já havia selado o destilo millonário.

Daniel Passarella chegou contratando quase um time inteiro - Carrizo, Maidana, Román, Arano, Acevedo, Pavoni, Caruso...ufa - brigou com Julio Grondona, mas como todos que brigam com o mandachuva vitalício: não teve um final feliz. O certo é que o futebol argentino jamais será o mesmo e apesar das cenas dramáticas que correram o mundo, fica a pergunta: Existe vida na Argentina após o rebaixamento do segundo time mais popular do país?

Não apenas este torneio Clausura, como toda a temporada 2010/2011 foi simbólica ao remarcar uma novo mapa futebolístico que vrio a premiar o projeto mais sério da Argentina. Com um investimento de 9 milhões de pesos em sua categoria de base, o Vélez Sarsfield rubricou o seu posto no futebol argentino com um vice-campeonato no Apertura 2010 - brigando até a última rodada com o Estudiantes - e o título incontestável do Clausura 2011.Tudo começa à partir do comando de jogadores da decáda de ouro do clube de Liniers - Christian Bassedas, Turu Flores e outro jogadores que fizeram parte do título da Libertadores e Intercontinetal em 1994. Em claro consenso, a nova direção de futebol do Vélez tomou a primeira decisão importante: convidar Ricardo Gareca para assumir o cargo de treinador.

Como jogador, Ricardo El Tigre Gareca ficou conhecido por seu gol histórico no Monumental de Nuñez frente ao Peru, que classificou a seleção de Maradona e Bilardo ao mundial de 1986. Atingiu sua plenitude no futebol colombiano, marcado por ser o centroavante do América de Cali, três vezes vice-campeão da Libertadores - 1985,1986,1987. Como treinador teve um começo promissor no Talleres de Cordoba - um ascesso a primeira divisão e o título da Conmebol de 1999- mas ganhou notoriedade apenas com o título peruano - comandando o Universitário de Lima no Apertura 2008.

Eis que em 2009 surgiu a chance de dirigir o seu time de coração. Logo em seu primeiro campeonato chegou a primeira volta olímpica no estádio José Amalfitani. Na última rodada do certamê, o Vélez venceu o Huracán, então lider, por 1 a 0, com gol de Maxi Moralez aos 37 do segundo tempo. O lance até hoje é discutido. Larrivey comete grosseira falta no goleiro Monzón, não convalidada pelo árbitro Brazenas. A jogada segue, mas o goleiro do time dirigido por Ángel Cappa - que contava com Matias Deferico, Mauro Bollati e Javier Pastore - deixaria o gol livre para que Maxi Moralez decretasse o título do Torneio Clausura de 2009. A polêmica maquiou o obvio: que o Vélez Sarsfield era justamente o melhor time do país.

Como uma evolução daquela equipe, é mais do que lógico que a base da equipe ideal do torneio Clausura 2011 seja formada por jogadores do Velez Sarsfield. Seguindo a tendência da última Copa do Mundo, Ricardo Gareca armou o conjunto de Liniers num autentico 4-2-3-1. O veterano, Víctor El Chapa Zapata se tornou a peça mais importantes no esquema do Vélez. No título de 2009, Zapata atuava aberto pela esquerda, auxiliando Maxi Moralez e Hernán Rodrigo López - o então segundo atacante - na armação das jogadas. No entanto, ao perceber a queda de rendimento relacionada a sua idade , Gareca, recuou o ex-jogador do River Plate para formar a dupla de volantes ao lado de Franco Razzotti. Quem acompanhou o Vélez, notou que Zapata era o principal articulador na saída de bola e um dos maiores passadores do futebol argentino.

Outra marca do Vélez vem de seu letal lado esquerdo. Chapa Zapata, além do lateral, Emiliano Papa, e do meia, Ricardo Alvarez formam a trinca canhota do conjunto de Liniers. Elegante, com passadas largas e um repertório técnico digno dos grandes meio-campistas argentinos, Ricky Alvarez foi a maior revelação do primeiro semestre na Argentina, ao substituir Maxi Moralez - de um torneio irregular por suas seguidas lesões - de maneira mais que satisfatória. Não por acaso, Alvarez tornou-se a mais nova incorporação da Internazionale de Milão.

Emiliano Papa ficou conhecido por ser o lateral-esquerdo titular da seleção argentina no início da gestão Maradona. Perto do mundial foi perdendo espaço para Gabriel Heinze e Clemente Rodriguez. Apesar de negado o sonho fugaz de jogar a Copa do Mundo, nesta temporada, Papa voltou a demonstrar que é o melhor lateral esquerdo em atividade na Argentina. Apoiando constantemente o ataque, tornou-se a principal saída pelo lado esquerdo do campo.

O Vélez Sarsfield também teve o arqueiro mais regular e protagonista da defesa decisiva do campeonato. Na antepenúltima rodada, o Velez tinha pela frente o Godoy Cruz de Mendoza - seu fiel perseguidor. O líder se encontrava deprimido, graças a eliminação dramática na Libertadores, frente ao Peñarol. A equipe de Gareca jogava mal, e no ínicio do segundo tempo Barovero fechou o gol com defesas espetaculares. Após um mano a mano incrível com o atacante Ramirez, Barovero ligou um letal contra-ataque, que culminou com o golaço de Juan Manuel Martinez - encaminhando o título.

Não só por este gol de extrema classe, mas por ser o jogador mais desequilibrante do futebol argentino, El burrito - apelido referente a semelhança futebolística com seu ídolo Ariel Ortega - tem cadeira cativa na equipe ideal do torneio Clausura 2011. Tanto atuando como segundo atacante, ou auxiliando na meia cancha , Juan Manuel Martinez demonstrou ser um jogador fundamental e o grande injustiçado na convocação de Sergio Batista para a Copa América de 2011.

O vice-campeão, Lanús, teve como fator fundamental para o seu sucesso a sociedade no meio campo entre Mauro Camoranesi, Agustín Pelletieri e Diego Valeri. O veterano, italo-argentino, recusou uma proposta de seu clube de coração, o River Plate, chegando ao sul da província de Buenos Aires como a principal contratação do conjunto granate. No esquema 4-4-2 de Gabriel Schürrer, o campeão mundial pela Itália, formou ótima dupla de volantes ao lado de Agustín Pelletieri - um dos remanescentes do título do torneio Apertura de 2007.

Mauro Camoranesi, com sua categoria e experiência, foi um dos alicerces para o crescimento futebolístico de Diego Valeri. O jovem meia armador do Lanús, foi contratado pelo Porto, logo após ser considerado o craque do torneio Apertura 2007 - conquistado pelo conjunto granate. Após fracassar em Portugal - e passagem discreta pelo Almería da Espanha - Valeri voltou ao Lanús nesta temporada com a moral ainda baixa. No entanto, foi encontrando o seu futebol elegante, inteligente, que faz lembrar o seu grande ídolo, Juan Román Riquelme. Graças a sua ressurreição, Sérgio Batista o convocou para a Copa América, onde será reserva imediato de Esteban Cambiasso e Ever Banega.

Racing e Argentinos Juniors ficaram longe de disputar o título. O conjunto de La Paternal, graças ao esquema ultra-defensivo - 3-6-1 - imposto por seu treinador, Pedro Troglio, fez do atacante Nicolás Blandi uma espécie de Robinson Crusoé. Não por acaso, o ataque do Argentinos Juniors foi o terceiro menos efetivo durante todo o torneio - 16 gols - ficando à frente apenas de River Plate e All Boys. Com tanta proteção a defesa não seria surpresa que o Argentinos Argentinos chegasse ao final do torneio Apertura como a equipe menos vazada.

O que chama a atençao é o número de gols sofridos: 11 em 19 jogos. Muito deste número vem pela boa atuação de Juan Sabia: o único remanescente do tridente defensivo campeão do Clausura 2010 sob comando de Bichi Borghi - atual treinador do Chile. Com as saídas de Dario Scotti e Matias Caruso, sobrou para Sabia a função de liderar uma jovem e intransponível zaga. Ao seu lado, o promissor Santiago Gentileti alcançou o auge. O zagueiro oriundo das categorias de base do Gimnasia de La Plate, acabou perdendo espaço, obrigando-o a fazer carreira no futebol chileno - Provincial Osorno e O'Higgins. Foi assim, que acabou chamando a atenção de Claúdio Borghi - entao treinador do Argentinos Juniors e com históricos trabalhos no Colo-Colo, que o levou a La Paternal. Contudo, somente neste torneio Apertura de 2011 que ganhou a titularidade e a chance de mostrar seu valor como defensor.

O Racing fez uma campanha frustante. Perdeu 10 jogos e sequer conseguiu a classificação para a Copa Sulamericana. No entanto, a equipe fez bons jogos, e chegou a sonhar em brigar pelo título no início do torneio. Um dos grandes trunfos da equipe de Miguel Ángel Russo foi o setor direito do ataque e a sociedade entre Ivan Pillud e Gabriel Hauche. Em sua segunda temporada com a camiseta do Racing, Ivan Pillud se consolidou como o melhor lateral direito do futebol argentino. Forte no apoio e consistencia na defesa, Pillud é um forte candidato para aposentar o inoxidável Javier Zanetti. Não por acaso, Pillud foi o titular da seleção local de Sergio Batista.

A Academia também teve o artilheiro da competição. Desconhecido pelo público argentino, o colombiano Teófilo Gutierrez chegou a Avellaneda sem grande alarde. Porém, logo no segundo jogo como titular, anotou dois gols, começando uma série impressionante de gols. Chegou ao final da competição com a ótima marca de 11 gols - nenhum em cobranças de penalti - sendo que quatro deles de perna esquerda, outros cinco com a direita e dois de cabeça, demonstrando ser um centroavante de repertório completo e ganhando uma das vagas no ataque da seleção colombiana que disputa a Copa América.

A SELEÇÃO DO CLAUSURA 2011

-----------------------BAROVERO-------------------------------
----------SABIA-------------------GENTILETI------------------
PILLUD-----------------------------------------------------PAPA
-----------CAMORANESI-------------ZAPATA------------------
MARTINEZ---------------VALERI--------------------ALVAREZ
------------------------T.GUTIERREZ-----------------------------

D.T RICARDO GARECA

quinta-feira, 9 de junho de 2011

NUNCA SE INDISPONHA COM O GARÇOM

Por Fúlvio Silas


A vida é um bar. O lema defendido a ferro, fogo - e álcool - pelo cronista e adicto incorrigível, Enrique Symns, pode - e deve - ser defendido em qualquer boteco fuleiro, barzinho ou armazén de bairro. Sim, o bar demonstra lições que colégio de freira, reunião dos alcoólicos anônimos e telecurso 2000 jamais ensinarão. A epopéia da vez abateu-me a princípio do ano passado. Agora, com o metabolisco recomposto posso enfim dizer: Nunca se indisponha com o garçom.


Em uma sexta-feira qualquer, ao lado do comparça inca, cabulei uma tarde laboral afim de degustar do ócio e da vadiagem. Seguindo os passos do ilustre, adentramos a espeluncas inimagináveis, nas proximidades do metrô Ana Rosa. Não vale nem a pena mencionar o ocorrido, cuja experiência só nos fez partir rumo a qualquer point que tivesse cerveja gelada e mini-saias de garbor.


No entanto, nosso amigo inca é um daqueles frescos de carterinha. O torcedor do Alianza Lima, odeia botecos fuleiros ou qualquer outro recinto que disponha de cerveja barata em seu menú. O raciócinio deste peruano, amante do charme da mulher paulistana, é o seguinte: a mulher boa que vai em boteco, já nasceu morta. Certo ou não, segui novamente os passos de dito colega. Abusando de minha falta de contudência sentamos a mesa de um daqueles barzinho da região da Paulista, cheios de burocratas que passam pelo happy hour ora para falar mal do patrão, ora para cheirar o saco do mesmo.


Eis que, sem perceber, ali estavamos, sentados ao lado de gerentes de banco, secretárias ou scort girls de luxo. Era um deleite. Ps: No entanto, quase todas acompanhadas de mocorongos almofadinhas. Olhei para o inca com desdém. Nos restava tomar uma gelada e apreciar. Chamo o garçom e nada. O periano pede com mais afinco e lá vem ele com seu andar pausado e cara de poucos amigos.


- Queremos o litro da Norteña


A saborosa pilsen uruguaia valia a pena. Custava 12 reais enquanto Bohemia e Serramalte saiam a 7,50.




- A Norteña ainda está quente.


Porra, esse cara esta de brincadeira. Esse barzinho metido a besta não tem cerveja gelada. Me antecipei, e só de birra - e por gosto do malte charrua - chamei a quentissima Norteña e um balde de gelo. Entre a demorada chegada da cevada, fui ao banheiro e percebi um maduro casal desfrutando de uma geladissíma Norteña.


Foi o estopim para a guerra. Fui ao caixa reclamar do desalmando. O rapaz todo pomposo, cheio de explicações protocolares pediu desculpas, defendendo o empregado e sugerindo a troca. Já era tarde, pois a cerveja tibia nos esperava.


Filha da puta da minha cara esperei 20 minutos para que a cevada estivesse em temperatura apreciável, enquanto o maldito garçom olhava fixamente como se estivessemos cagados. O que teria feito em represália?? catarrado?? posto Leite de magnésia ou simplesmente almadiçoado a garrafa com sua cara de porco cansado??O inca ao perceber o enredo da peleja nem pensou em colocar em jogo sua saúde intestinal. Seguindo pela vereda irracional traguei solitáriamente o litro de cerveja semi quente.


Por sorte já era hora de partir. O retorno para a Aclimação foi no pior estilo sessão da tarde. O amigo inca dissertava sobre MIFS gostosas, futebol ou qualquer outra prezepada, no momento que o revés se fez notar. Entre bufas e estufas, chegamos ao bairro. Sem titubear corri para a rua Vergueiro, adentrando a primeira padoca ainda aberta. Comprei o isqueiro com o Titanic prestes a se chocar no iceberg; Calça arriada, nem um papel do lado. Ploft vai, ploft vem e a lição do bar esteja mais que aprendida: Nunca se indisponha com o garçom.