quinta-feira, 9 de junho de 2011

NUNCA SE INDISPONHA COM O GARÇOM

Por Fúlvio Silas


A vida é um bar. O lema defendido a ferro, fogo - e álcool - pelo cronista e adicto incorrigível, Enrique Symns, pode - e deve - ser defendido em qualquer boteco fuleiro, barzinho ou armazén de bairro. Sim, o bar demonstra lições que colégio de freira, reunião dos alcoólicos anônimos e telecurso 2000 jamais ensinarão. A epopéia da vez abateu-me a princípio do ano passado. Agora, com o metabolisco recomposto posso enfim dizer: Nunca se indisponha com o garçom.


Em uma sexta-feira qualquer, ao lado do comparça inca, cabulei uma tarde laboral afim de degustar do ócio e da vadiagem. Seguindo os passos do ilustre, adentramos a espeluncas inimagináveis, nas proximidades do metrô Ana Rosa. Não vale nem a pena mencionar o ocorrido, cuja experiência só nos fez partir rumo a qualquer point que tivesse cerveja gelada e mini-saias de garbor.


No entanto, nosso amigo inca é um daqueles frescos de carterinha. O torcedor do Alianza Lima, odeia botecos fuleiros ou qualquer outro recinto que disponha de cerveja barata em seu menú. O raciócinio deste peruano, amante do charme da mulher paulistana, é o seguinte: a mulher boa que vai em boteco, já nasceu morta. Certo ou não, segui novamente os passos de dito colega. Abusando de minha falta de contudência sentamos a mesa de um daqueles barzinho da região da Paulista, cheios de burocratas que passam pelo happy hour ora para falar mal do patrão, ora para cheirar o saco do mesmo.


Eis que, sem perceber, ali estavamos, sentados ao lado de gerentes de banco, secretárias ou scort girls de luxo. Era um deleite. Ps: No entanto, quase todas acompanhadas de mocorongos almofadinhas. Olhei para o inca com desdém. Nos restava tomar uma gelada e apreciar. Chamo o garçom e nada. O periano pede com mais afinco e lá vem ele com seu andar pausado e cara de poucos amigos.


- Queremos o litro da Norteña


A saborosa pilsen uruguaia valia a pena. Custava 12 reais enquanto Bohemia e Serramalte saiam a 7,50.




- A Norteña ainda está quente.


Porra, esse cara esta de brincadeira. Esse barzinho metido a besta não tem cerveja gelada. Me antecipei, e só de birra - e por gosto do malte charrua - chamei a quentissima Norteña e um balde de gelo. Entre a demorada chegada da cevada, fui ao banheiro e percebi um maduro casal desfrutando de uma geladissíma Norteña.


Foi o estopim para a guerra. Fui ao caixa reclamar do desalmando. O rapaz todo pomposo, cheio de explicações protocolares pediu desculpas, defendendo o empregado e sugerindo a troca. Já era tarde, pois a cerveja tibia nos esperava.


Filha da puta da minha cara esperei 20 minutos para que a cevada estivesse em temperatura apreciável, enquanto o maldito garçom olhava fixamente como se estivessemos cagados. O que teria feito em represália?? catarrado?? posto Leite de magnésia ou simplesmente almadiçoado a garrafa com sua cara de porco cansado??O inca ao perceber o enredo da peleja nem pensou em colocar em jogo sua saúde intestinal. Seguindo pela vereda irracional traguei solitáriamente o litro de cerveja semi quente.


Por sorte já era hora de partir. O retorno para a Aclimação foi no pior estilo sessão da tarde. O amigo inca dissertava sobre MIFS gostosas, futebol ou qualquer outra prezepada, no momento que o revés se fez notar. Entre bufas e estufas, chegamos ao bairro. Sem titubear corri para a rua Vergueiro, adentrando a primeira padoca ainda aberta. Comprei o isqueiro com o Titanic prestes a se chocar no iceberg; Calça arriada, nem um papel do lado. Ploft vai, ploft vem e a lição do bar esteja mais que aprendida: Nunca se indisponha com o garçom.
































































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