segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

UMA TARDE EM BONSUCESSO



Por Felipe Bigliazzi


"Cacuia, Cocota, Bancários!!!" este é o grito de guerra de um rapaz que ostenta a camisa do Flamengo, um chinelo havaianas e o colar com as cores da Jamaica. Para atrair os clientes, solta o gogó sem medo de ser feliz. Na hora do rush o anuncio da lotação é ecoado douse vezes - assim se pronuncia 12 no antigo estado da Guanabara. Já se passaram 5 Kombis (principal transporte circular da Ilha do Governador) e nada do aguardado coletivo. Eis que, imponente, surge o 901 - o esperado ônibus que liga a Ilha até a estação ferroviária de Bonsucesso. Sento, disfarço o mal-jeito andreense, sem antes pisar na ponta do sapato de um rapaz roliço e ligeiramente afeminado. Me aproximo e pergunto: " Passa pela Avenida Teixeira Castro, no campo no Bonsucesso?"

Os ponteiros marcavam 13:50 e nossa impaciência tinha um motivo todo especial: o jogo entre Bonsucesso e Boa Vista estava marcado para as 15:00. Já Haviamos saído da Ilha; cruzando a Linha Vermelha chegando sem louvor na Avenida Brasil. O bairro de Bonsucesso é caracterizado por seus antigos galpões industrias, assim como pela cercania de dois dos principais complexos de favelas do Rio de Janeiro. Acima da estação de Bonsucesso é possivel avistar o imponente Complexo do Alemão.

O Complexo, homônimo do maior morro da região, engloba 8 das mais famosas favelas do Rio de Janeiro. Ganhou fama nacional quando em Outubro do ano passado o exercito invadiu o quartel central do Comando Vermelho. Entre a Linha Vermelha e a Avenida Brasil podiamos avistar o complexo da Maré, outra imponente gama da favelas da zona norte fluminense.A Maré  já havia ficado para trás quando o tal rapaz roliço de traços levemente afeminados, avisou que a sede do Bonsucesso estava a esquerda.

O clube esta em festa. O Leão da Leopoldina esta de volta a primeira divisão do futebol fluminense  após 19 anos de hiato. Na entrada do clube, uma enorme faixa saudava o feito. Do outro lado da calçada o bar e café Bandinha - a Garotinha de Bonsucesso - já faturava com a presença habitual de seus adeptos futebolísticos. Ali, se juntam nos dias de peleja os mais fanáticos torcedores rubro-anil, entre eles, o popular Russo.

Este senhor de 69 anos não perde um jogo, tampouco o bom humor. Sentado na bancada, do lado de fora do bar, Russo desfruta de um bom cafezinho, sem demonstrar ansiedade para o início do embate. Eis que, levanta-se suavemente, sem antes pendurar a conta - contrariando o anuncio do balcão anti-fiado -  rumando em direção a entrada do clube. Solicito e boa praça, Russo tem a triste fama de pão duro, portanto, vai logo avisando ao bilheteiro: "Eu não pago entrada hoje!". Segundo Russo o sucesso do time tem dois responsáveis: " Primeiro o Zeca Simões - o presidente. Assumiu o clube num bagaço. Até a iluminação do campo levaram. Ai ele trouxe o Manoel Neto que estava em Portugal e tudo começou a engrenar. Se não fosse ele o Bonsucesso não subiria".

Manoel Neto é conhecido como o rei do acesso do futebol carioca. O experiente treinador se gaba do currículo vencedor na série B. Levou em sete oportunidades suas equipes a elite. Robusto e cisudo, Manoel Neto insentiva seus jovens jogadores no aquecimento. Logo ao lado, calado e atento as indicações do treinador esta o astro da equipe: Túlio Maravilha. Aos 42 anos, o Maravilha segue trocando de time; inoxidavelmente rumo ao sonho do milésimo gol. Por essas e outras, o veterano artilheiro é o personagem da tarde. No jogo anterior - contra o Duque de Caxias na baixada fluminense - Túlio anotou o gol de número 972; não foi um gol qualquer, foi de bicicleta. E não é que o Bonsucesso tem no gol de bicicleta uma peculiaridade. Foi ali, no velho campo da rua Teixeira de Castro, que Leonidas da Silva começaria a ensaiar a jogada símbolo de sua mítica carreira.

O artilheiro da copa de 1938 é até hoje o orgulho do Bonsucesso, tanto que o acanhado estádio leva o seu nome. A torcida organizada do clube - Torcida Rubro anil - , enverga uma bandeira de bambú com a caricatura do histórico artilheiro. No entanto, a tarde estava destinada a outro goleador. Nas arquibancadas, inúmeros torcedores vestiam a camiseta do Botafogo para apreciar, homenagiar e agradecer ao principal responsável pelo último titulo nacional conquistado do clube da estrela solitária.

O jogo começa e nenhuma alma presente consegue desgrudar os olhos do folclórico matador. Primeio ataque; um cruzamento despretencioso, e ele, sempre ele, o Maravilha, se antecipando a dupla de zaga do Boa Vista, anota seu gol 973. Sorte de Julinho. Com o passe, o jovem atacante embolsou 100 reais pois Túlio prometeu dar uma nota de garoupa para cada companheiro que lhe dê uma assistencia de gol.

O que se viu nos demais 44 minutos de primeiro tempo foi digno das piores peladas: abuso de individualidade, erros de passes, chutes fortuitos e até canelada. A primeira fase da Copa Rio é melancolica. Simbolo do descaso das federaçoes estaduais no Brasil. Para que os clubes do suburbio e do interior do estado nao fiquem sem agenda após o estadual, a Federação do Rio de janeiro criou o torneio em formato de copa, que classifica o campeão para a Copa do Brasil do ano seguinte ou para a série D nacional - de acordo a escolha previa dos clubes.

No intervalo, um grande movimento de torcedores se abateu sob o campo de Teixeira de Castro. Aposentados mal-avisados e estudantes cabuladores de aula, davam o ar da graça afim de apreciar o desfecho do cotejo. Entre os atrasados, avisto um senhor grisalho com uma boiná vermelha e um tênis sem meia. Não foi preciso muito tempo para que o singelo senhor fosse cercado e saudado por veteranos torcedores. "Esse é o Afonsinho. Jogava pra caralho!" vocifera o desbocado botafoguense.

Sim, era o Afonsinho. O ex-meia do Botafogo  estava lá para reverenciar Túlio Maravilha. Sua história é famosa. Virou livro e até documentário. Um símbolo latente de rebeldia em meio aos anos de chumbo. De barba, cabeleira e bigode, Afonsinho era a antítese do desportista tupiniquim. Desafiou Zagallo e parte dos dirigentes do Botafogo. Líder do grupo, Afonsinho começou a cobrar um aumento no bicho apos o titulo carioca de 1968. Foi o estopim para que o clube da estrela solitaria o colasse no limbo. Sem titebear, o jogador entrou na justiça  e teve como recompensa o direito de ter o passe em suas mãos.

Nesse entretempo, Afonsinho defendeu as cores do Olaria, Logo ali perto de Bonsucesso, na cativante região da Leopoldina. Com o passe, e a liberdade intacta, ainda teve o prazer de jogar com Pelé em sua última temporada com a camisa do alvinegro de Vila Belmiro. Contudo, naquela tarde, pouco pôde desfrutar do personagem da vez. Túlio saiu logo. Cansado, porém sempre irreverente, cruzou o campo a caminho do vestiário saudado por todos, inclusive por Afonsinho, sem antes dar um abraço - a beira do campo - na dupla desavisada de policiais. Cena insólita de uma tarde de futebol visceral. 
O apito final concretizou a esperança do Bonsucesso em avançar na competição.No placar, um singelo 3 a 1. Era a hora de voltar ao Garotinha de Bonsucesso; degustar uma cervejinha e esperar por minha boa e velha kombi carioca. Afonsinho já estava lá. Rodeado de amigos, relembrando anedotas, com um bom copo americano de cevada na mão. Eu não queria partir, as histórias sempre empolgantes... quando um grito desloucado me consumiu. "Olaria, Penha, Ilha do Fundão!!!". Paguei a conta, tomei o último gole e parti.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

MENOTISMO OU BILARDISMO? A ERA SABELLA!

Menotismo ou bilardismo? De que clássica frente ideológica terá em prática a nova seleção argentina. Sabella não renega a importancia que Carlos Salvador Bilardo teve em sua carreira. Sob comando de Bilardo, Pachorra Sabella - apelido oriundo de seu estilo cerebral de jogar - conheceu a glória, ao conquistar o Campeonato argentino de 82 para o Estudiantes de La Plata. No entanto, Sabella quer se distanciar da chamada Geração de 86.Após o fracasso de Coco Basile, Julio Grondona convocou Bilardo como manager de todas as seleções da AFA. Dava inicio o projeto batizado como Geração de 86 - com parte dos jogadores campeões do mundo no México comandando os selecionados nacionais. Tatá Brown e Garré ficaram com as seleções sub 17 e sub 20. Sergio Batista com o projeto olímpico, enquanto Maradona - com o Negro Enrique como auxiliar técnico - a frente da seleção principal.

Sabella, apesar de tocar a gloria sob a batuta de Bilardo no Estudiantes, foi excluido da lista final para o Mundial de 86. Ao final de sua carreira como futebolista, Sabella se aproximou de Daniel Passarella, símbolo da era Menotti - 1975 à 1982. Junto a seu ex-companheiro de River Plate - clube que o revelou em meados dos anos 70 - Sabella trabalhou como assistente técnico da seleção nacional - entre 95 e 98.

Em seus dois primeiros jogos sob o comando da seleção argentina, ainda nao pudemos observar qualquer ideia de jogo ou resquicios de um pragmatismo bilardista ou um virtuosismo menotista. A equipe variou táticamente de um 4-3-2-1 da estreia contra a Venezuela para um 3-1-4-2 frente aos nigerianos. Tudo tem um claro motivo: resolver a dependência de Lionel Messi. Na última Copa América ficou claro o desespero do craque do Barcelona, em retroceder até o meio campo para tentar solucionar os problemas de criação da equipe.

Contra a Venezuela vimos os mesmos problemas. Sabella escalou Gonzalo Higuain como único atacante, tendo Di Maria, pela esquerda, e Messi, pela direita como seus dois armadores. O meio campo ainda contava com Mascherano na contensão; Lucho Gonzales, pela direita, e Ricky Alvarez, pela esquerda, como volantes de mais chegada. A ideia falhou, já que Messi voltava para auxiliar na saída de jogo ineficaz, e assim, agarrava a bola longe do gol adversario.

Contra a Nigéria, Sabella testou uma nova formação. Era o regresso de uma defesa com três zagueiros. Demichelis como líbero; Otamendi - autor do gol da vitória contra os venezuelanos - e Burdisso como stoppers. Mascherano se manteve como volante central, enquanto uma linha de 4 jogadores passaria a pressionar o adversario ainda em seu campo. Os laterais, Zabeleta e Marcos Rojo, passaram a atuar como alas, em linha com Di Maria, pela esquerda, e Principito Sosa - lançado no Estudiantes pelo proprio Sabella - pela direita.Eis que por destino, ou uma virtual coincidência, Messi atuando como segundo atacante, ao lado de Higuian, encontrou o seu melhor futebol.

Para os confrontos contra o Brasil, Sabella não poderá contar com Juan Román Riquelme e Juan Sebabstián Verón - ambos com problemas fisicos. Assim, a equipe argentina deverá entrar no estádio Mario Alberto Kempes de Córdoba no esquema 3-2-4-1com Agustín Orión do Boca Juniors no gol. Sebastián Dominguez, Leandro Desábato e German Ré como zagueiros. A dupla de volantes será a mesma do último campeão argentino: Hector Canteros e Victor Zapata do Veléz Sarsfield. A frente uma linha de 4 armadores fomada pelos alas Ivan Pillud, do Racing pela direita e Emiliano Papa, do Vélez Sarsfield pela esquerda, somada a sociedade entre Augusto Fernandez pela direita, e Juan Manuel "El burrito" Martinez, pela esquerda. O centroavante será Mauro Boselli, que desde seu regresso ao Estudiantes de La Plata não conseguiu balançar a rede.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

A VOLTA DA EX-CELESTE

Por Felipe Bigliazzi

"Quinta-feira, contra os uruguaios, foi sublime! A celeste não percebeu ainda que é a ex-celeste. Vive de passado como uma planta de sol. Todas as suas datas são irremediavelmente velhas: - 1930,1950 são as mais recentes. Sua presunção olímpica e mundial não tem um correspondente futebol. E, contra o Brasil, a ex- celeste sentiu que a vitória lhe fugia como água por entre os dedos. Deu-lhe então a fúria da frustração. Batida no futebol, partiu para a luta corporal. Amigos, foi um sururu de antologia" Eis a crônica de Nelson Rodrigues, publicada pela Manchete Esportiva no dia 4 de Abril de 1959. Já havia passado quase uma semana, porém o Anjo Pornográfico, com sua pluma afiada, não perdeu a oportunidade de celebrar a vitória brasileira frente ao eterno fantasma do futebol tupiniquim.


Correu-se mais de cinco décadas, e a celeste, por boa parte desses 52 anos, se comportou como ex-celeste. Nos anos 80, ensaiou uma ressurreição ao vencer a Copa América em duas oportunidades - 83 e 87. Do final dos anos 80, até a chegada de Oscar Tabárez, o Uruguai guardava apenas a honra de ter vencido a Copa América de 95, em pleno estádio Centenário - nos penaltis contra a seleção brasileira. O Próprio Oscar Tabárez havia levado o Uruguai até as oitavas de finais do mundial de 90 - perdendo para a anfitriã, Itália por 2 a 0. Em 94, 98 e 2006 os uruguaios tiveram que assistir a Copa do mundo através da televisão , sendo que em 2002, sequer avançou de fase - empatando frente a Senegal, França e Dinamarca. Eis que veio a geração de Diego Forlán, Lugano, Súarez, e com eles o primeiro sinal da verdadeira ressurreição charrua: o quarto lugar no mundial da África do Sul.


"Queriamos provar que aquilo não foi casualidade" disse Luisito Suárez. 20, 30... 40 mil uruguaios cruzaram o rio de La Plata a fim de acompanhar o capitulo final desta saga. Pela frente, o cavalo paraguaio que ninguém conseguia deter. Sem nenhuma vitória, com duas decisões de penaltis nas costas, a seleção paraguaia chegava ao Monumental de Nuñez com inúmeros problemas. Gerardo Martino escalou uma nova versão defensiva - a quarta formação apresentada em seis jogos disputados - com Dario Verón novamente recuado para zaga junto a Paulo da Silva. Roque Santa Cruz, Lucas Barrios, Aureliano Torres e Marcelo Estigarribia - por opção técnica - seguiam fora, e como previsto, o começo da final foi todo uruguaio. Justo Villar, grande responsável pela presença guaraní nesta final, seguia iluminado. Aos dois minutos, o arqueiro guarani aplicou um mais novo milagre, ao deter uma cabeçada a queima roupa de Diego Lugano.

Foram cinco escanteios até que à abertura do placar. O conjunto charrua entrou em campo no mesmo esquema do rival: O 4-4-2. Alvaro Pereira, pela esquerda, e Alvaro Gonzalez, pela direita, buscavam ganhar o duelo contra os novos laterais do Paraguai - Ivan Piris e Marecos. Diego Perez voltava após suspensão, e junto a seu eterno companheiro, Arévalo Rios, vencia a batalha no meio campo frente a Victor Cacéres e Ortigoza - a dupla de volantes da seleção albiroja. E coube justamente a Ruso Perez, pegar o rebote da defesa paraguaia e servir Luis Suárez. O atacante do Liverpool, as costas de Marecos, dominou, cortou Dario Verón com a direita, e com a canhota, pode enfim vencer Justo Villar.


Corriam 12 minutos, e dali em diante ficou evidente uma das principais virtudes desse, já histórico, selecionado uruguaio: o compromisso de todos na marcação. Nem mesmo o grande craque do time -Diego Forlán - se dá ao luxo de botar a mão na cintura. Junto a seu companheiro de ataque - Luis Súarez - Forlán retrocedia para marcar a saída de bola dos zagueiros paraguaios. Oscar Tabárez ordenou o Uruguai para esperar o Paraguai à 3/4 do campo, especulando para sair em contra-ataques. O Paraguai teve a bola e o campo a seu dispor, mas tanto os meias extremos - Riveros e Enrique Vera - como a dupla de ataque - formada por Zeballos e Haedo Valdez -seguiam se equivocando, desnudando a falta de criatividade.


Ivan Piris, pela direita, era a única peça lúcida da equipe de Gerardo Martino. Contudo, o arqueiro charrua, Muslera, seguia como um mero espectador. Para piorar, a saída de bola da equipe paraguaia ficava a cargo dos limitados volantes guaranis, e estesm pressionados por uma exorbitante maioria de uruguaios, acabaria sentenciado o destino da Copa América. Ortigoza, olhava, pensava, ninguém aparecia... entao Arévalo Rios como um trator, surgiu entre todos, roubando a bola, abrindo toda a defesa para servir Forlán com absoluta astúcia. O melhor jogador do último mundial tinha nova chance de afastar a zica, e de canhota, como nos tempos da Vuvuzelas, estufou a rede de um incrédulo Justo Villar: 2 a 0


O segundo tempo seguia sob controle espiritual do Uruguai. Estigarribia e Lucas Barrios ainda entraram para tentar mudar o panorama, mas o que vimos em Buenos Aires foi a exibição de um time de muita personalidade. Diego Lugano e Coates ganhavam todas as divididas. Maxi Pereira e Martín Cáceres - os laterais - seguiam sem inconvenientes, avançando ao ataque e ganhando tempo a cada falta paraguaia. Ruso Perez e Arévalo Rios travavam no meio campo, triplicando a vantagem uruguaia no score de desarmes.


Luis Súarez e Diego Forlán davam aula para os denominados craques argentinos e brasileiros, com muita disposição para marcar e categoria ímpar para definir a partida. E foi assim, em meio a um mortal contra-ataque e ajeitada precisa de Súarez, que Forlán se viu novamente frente a Justo Villar. Era o último minuto, e com um toque sútil, desatou a já clássica comemoração de seu treinador. El Maestro Tabárez, assim como no mundial, ergueu os dois braços, abriu a boca em formado de ovo, e com uma virada de quartenta e cinco graus, gritou forte para mostrar quem manda na América. Como se não fosse simbólico, o Uruguai saiu de Buenos Aires com tudo. Prêmio de melhor jogador - Luis Súarez. Prêmio de revelação - Coates. E pasmem: prêmio Fair Play. Para desespero de Nelson Rodrigues, a ex-celeste voltou a ser celeste, e assim, 3,3 milhões de uruguaios entonaram: "Volveremos, Volveremos, Volveremos otra vez. Volveremos a ser campeones, como la primera vez!

quarta-feira, 20 de julho de 2011

QUE CULO TUVIMOS!

Por Felipe Bigliazzi

Hoy tuvimos culo! Eis a honesta explicação que Gerardo Martino - treinador da seleção paraguaia -, deu para a classificação de sua equipe frente à seleção da CBF.Em bom portuñol: que baita sorte tivemos. O argentino - que desde 2006 comanda o Paraguai - ao dizer esta pérola, assumiu sem pudor algum, que tinha como estratégia esperar o conjunto canarinho dentro de seu campo. Sem poder contar com Roque Santa Cruz - lesionado - Tatá Martino apostou na dupla de ataque formada por Lucas Barrios e Haedo Valdez, somada as já tradicionais linhas de quatro jogadores. A primeira linha de marcação continha Marcelo Estigarribia - pela esquerda para segurar Maicon; Enrique Vera, pela direita, para duelar com André Santos, enquanto Riveros e Cacéres, por dentro, combateriam os avanços de Paulo Henrique Ganso - e as eventuais subidas de Ramires. No entanto, o dueto de atacantes do Paraguai viu o Brasil começar o cotejo dentro do campo paraguaio. Neymar, Robinho e Alexandre Pato, trocando seguidamente de posição, induziam a primeira linha do Paraguai ao erro. Neymar pressionava Dario Verón. Robinho fazia o mesmo pela faixa direita, contra o lateral esquerdo, Aureliano Torres, enquanto Pato partia para cima da dupla de zagueiros do Paraguai - Alcaraz e Paulo Da Silva. A idéia daria certo. Em ambas jogadas oriundas de roubadas rápidas em campo guaraní, Neymar teve chance de abrir o placar; a segunda, após passe cirúrgico de Robinho.


O Paraguai seguiu durante todo o primeiro tempo, colado em seu campo, sofrendo a cada avanço tupiniquim. Marcelo Estigarriba, tão inspirado no confronto frente aos brasileiros na primeira fase, seguia omisso, sem conseguir desafogar a pressão que seu time sofria. Aquela altura, Justo Villar já era a figura guaraní, ao defender a queima roupa um carrinho, quase certeiro de Lúcio - após cruzamento na área. O segundo tempo seguiu sob o ritmo de um verdadeiro monólogo brasileiro. A única mudança foi à entrada de Barreto, no lugar do lesionado, Enrique Vera. Neymar, novamente, teve a chance de abrir o placar, quando cortou Paulo Da Silva e arrematou para fora. O volume de jogo brasileiro era enorme. Paulo Henrique Ganso fez Villar aplicar seu segundo milagre, ao desviar um tiro certeiro que tinha destino certo. O terceiro milagre viria minutos depois, quando em um cruzamento na área, Alexandre Pato dominou de frente para o arco, mas o arqueiro paraguaio, com muita astúcia, fechou o ângulo no momento exato. O atacante do Milan ainda teria uma nova chance, só que outra vez – sim, ele - Justo Villar saiu em seus pés desviando a redonda para a linha de fundo. O destino já estava escrito, e a prorrogação era realmente inevitável. Fred, que havia entrado no lugar de Alexandre Pato, chegou a vencer o paredão Villar, cabeceando sob o arqueiro após escanteio, mas Barreto, para alegria de Larissa Riquelme, conseguiu sacar em cima da linha. A prorrogação seguia sob domínio tupiniquim. Eis que surgiu o insólito arranca rabo. Resultado: Lucas Leiva, de tímida atuação - assim como o zagueiro paraguaio Alcaraz - foi para o chuveiro mais cedo. O fato esfriou o Brasil, e a disputa de penalti chegava acompanhada de mal pressagio. Quatro brasileiros tiveram a chance de vencer Justo Villar, mas a imperícia, o morrinho artilheiro e os deuses do futebol, já haviam determinado que o Paraguai era o semifinalista.


Tatá Martino foi o autor da frase titulo deste artigo, mas em menor ênfase, Sérgio Markarián também poderia ter dito: Hoy Tuvimos Culo! Já que Peru e Colômbia fizeram um jogo equilibrado; marcado pelo final de jogo não apto para cardíacos. O penalti desperdiçado por Radamel Falcão Garcia, e as duas bolas na trave - a segunda de Freddy Garin aos 45 do segundo tempo, pareciam dizer que a Colômbia merecia melhor sorte.Apesar da pressão agônica, o que se viu no estádio Mario Kempes foi uma batalha de meio campo. El Mago Markarian definiu na preleção a quem cada jogador peruano deveria marcar. Juan Manuel Vargas, pela esquerda, e Luis Advíncula, pela direita, bloquearam as subidas dos laterais colombianos - Camilo Zuñiga e Pablo Armero. William Chiroque, que ganhou a posição no meio campo – deixando Michael Guvera e Carlos Lobatón no banco de reservas - teve a função de acompanhar o melhor volante cafeteiro - o canhoto Freddy Guarín -, enquanto Paulo Cruzado, na meia esquerda, marcava a finco, ao volante Abel Aguilar. Para marcar o tridente ofensivo da Colômbia, Sergio Markarián apostou no poder de marcação de seus laterais. Sem poder contar com Giancarlo Carmona, o treinador uruguaio escalou o lateral-direito, Enzo Revoredo, para conter as ações de Adrián Ramos. O extremo-esquerdo, Dayro Moreno - o melhor colombiano na partida - teve a marcação de Walter Vílchez. Justamente por este setor, a Colômbia teve seus melhores momentos na primeira etapa. O centroavante Radamel Falcão, se encontrava inerte, isolado em meio a marcação da dupla de zagueiros - Christian Ramos e Alberto Rodríguez. A primeira chance cafeteira surgiu em uma cobrança rápida de Guarin, pela faixa esquerda do ataque, encontrando Armero, que chutou desviado, assustando o arqueiro Raúl Fernandez.


O ataque peruano se resumia aos avanços de Juan Manuel Vargas. Nos pés do ala-esquerdo da Fiorentina surgiram as singulares chances do conjunto inca. No intervalo, Markarian sacou Luis Advincula - de apagado primeiro tempo - para a entrada de Lobatón. Assim, Chiroque teve mais liberdade pela ponta direita; e ali, por dito setor, o Peru construiu um bom repertorio de jogadas na primeira metade da segunda etapa. O cotejo seguia sob controle, quando de um pelotazo, Radamel Falcão se aproveitando de falha de Alberto Rodriguez, entrou na área, e quando iria anotar a vantagem cafeteira, acabou sendo derrubado pelo mesmo zagueiro trapalhão. Na cobrança, a bola desviada para fora, mantinha a ilusão inca. Ilusão essa que quase foi desfeita no último minuto do jogo, quando Freddy Guarín arrancou pela esquerda, cortou Revoredo, driblou Balbín, até parar no travessão do gol defendido por Raúl Fernandez. Na prorrogação, o jogo seguia amarrado, até que o arqueiro Luis Martinez resolveu vestir o traje de vilão. Após cruzamento na área, o arqueiro do Once Caldas se atrapalhou, esbarrando em Mario Yepes, e deixando a bola e o gol aberto. Lobatón, que não tinha nada com isso, encheu o pé, inflando a rede colombiana: 1 a 0 para o Peru. A vantagem peruana desatou o desanimo colombiano, que sem reação viu o seu arqueiro Martinez, entregar nos pés do até então sumido, Paolo Guerrero, a esperança de uma virada. O centroavante rolou para Loco Vargas, que sem titubear, fuzilou o arco com seu potente tiro de canhota: 2 a 0.


A seqüência das quartas de finais, nos apresentava o grande duelo desta fase: Argentina e Uruguai. A grande batalha do Rio de La Plata começou a todo vapor. Logo a 4 minutos, Diego Forlán alçou a bola na área argentina; Gabriel Milito, Nicolás Burdisso e também Zabaleta, não saíram do chão e Alvaro Pereira, espertamente, cabeçou direto para o gol. O que parecia ser uma fácil defesa, acabou tornando-se um rebote de Chiquito Romero, e assim, sem pena nem glória, Diego Perez - que poderia ter sido expulso logo no primeiro minuto de jogo após entrada criminosa em Mascherano - anotou a vantagem charrua em um belo carrinho . Contudo, a seleção argentina não se desesperou. Checho Batista havia voltado a seu esquema fetiche: o 4-3-3 semelhante ao Barcelona. Assim, Mascherano ficaria na contenção, para que Fernando Gago, pela direita, e Ángel Di Maria pela esquerda, ganhassem o meio campo. Lionel Messi, como nos velhos tempos, voltava a atuar na ponta direita, enquanto, Kun Agüero, abriria o campo pela ponta esquerda, para travar um duelo particular com o lateral direito do Uruguai - Maxi Pereira. E como não poderia ser diferente, Lionel Messi começava a gravitar nas costas de Martin Cacéres.


O empate blanquiceleste já era eminente. La pulga, com sua categoria ímpar, tocou pelo alto, encontrando Gonzalo Higuain, livre entre a dupla de zaga - Diego Lugano e Mauricio Victorino. O jogador do Real Madrid, com um toque sútil, desviou a bola de cabeça rumo ao fundo das redes: 1 a 1 em Santa Fé. O que se viu dali em diante foi um amplo domínio argentino. Diego Forlán e Luis Suárez se limitavam a marcar a saída de jogo, enquanto o tiki tiki argentino empurrava seus companheiros para dentro da área. O Uruguai chegou até a abusar da violência e não foi surpresa, quando o arbitro, Carlos Amarilla, mostrou o segundo cartão amarelo para Diego Perez - após o volante charrua matar o contra ataque argentino.


Com um jogador a menos, Oscar Tabárez se viu obrigado a modificar sua estrutura defensiva - até então armada em duas linhas de quatro. Alvaro Pereira e Alvaro González, que por ora atuavam pelos lados do campo - para conter as subidas dos laterais argentinos, Zanetti e Zabaleta - tiveram que se reposicionar no meio campo pois Arévalo Rios ficou sozinho na contenção de Lionel Messi. O Uruguai se segurava com a tradicional garra. A posse de bola seguia sob comando da seleção argentina, e a esperança uruguaia se limitava a bolas alçadas a area. Para sorte Uruguai, Mascherano e a dupla de centrais, seguiam cometendo faltas perto da área, e assim, no minuto final, Diego Lugano, pegando rebote, pode cabeçear no travessão; assustando a hinchada local. A segunda etapa começou com Lionel Messi, cada vez mais inspirado. Muslera seguuia negando o primeiro grito de gol do melhor do mundo .O goleiro nascido em Buenos Aires começava a vestir o traje de herói uruguaio. Higuaín também parou nas luvas do jovem arqueiro após receber outro belo passe de Messi. Pipita girou em cima de Lugano, acertando a queima roupa o arqueiro da Lazio. Aos poucos, a seleção uruguaia foi se acetando em campo. E a base do contra-ataque, acabou criando sua grande chance. Luis Suarez ganhou na corrida, e ao encarar a toda defesa argentina, acabou encontrando Diego Forlán. Contudo, a fase do melhor jogador do último mundial é mesmo de amargar, é Romero conseguiu evitar a vantagem charrua. Para aumentar a tensão, Mascherano também viu o segundo amarelo, após matar o contra-ataque armado por Luis Suárez.


A prorrogação foi coronária. Um lá e cá dos diabos se abateu sob o estádio conhecido como Cementerio de Los Elefantes. Checho Batista reorganizou o meio campo com as entradas de Lucas Biglia e Javier Pastore - nos lugares de Fernando Gago e Ángel Di Maria. Oscar Tabárez, espertamente, deixou seu meio campo ainda mais combativo, com os ingressos de Sebastián Eguren e Walter Gargano - para os lugares de Alvaro Pereira e Arévalo Rios. Mesmo assim, a seleção charrua teria duas claras chances de gol nos pés de Luis Suarez, enquanto a Argentina com Higuaín esteve a um passo da gloria, negada pela trave direita do gol defendido por Muslera. O próprio Muslera, após cobrança de Carlitos Tevez - que havia ingressado no lugar de Kun Agüero - e desvio na zaga uruguaia, acabaria decretando o empate, após sequencia impressionante de defesas arrojadas. Nos penaltis, acabaria brilhando a estrela de Muslera, que ao defender a cobrança de Tevez, carimbou a presença uruguai nas semifinais.


E o que falar da classificação venezuelana. Até mesmo Hugo Chávez - em plena luta contra o câncer na região pélvica - vibrou desde a ilha de Fidel com a conquista da seleção vinotinto. Muito de dita façanha se deve a inteligente estratégia de jogo planejada pelo jovem e marrento, Cesar Farías. A idéia venezuelana era pressionar o tridente de zagueiros do Chile, evitando o domínio do conjunto andino pelos lados do campo. A primeira linha de marcação da Venezuela tinha a Arango e Maestrico Gonzalez, combatendo os alas, Mauricio Isla e Arturo Vidal. A dupla de ataque, Fedor e Maldonado, junto do volante Rincón - mais avançado neste cotejo - pressionavam os zagueiros chilenos - Pablo Contreras, Waldo Ponce e Gonzalo Jara - forçando os mesmo aos tradicionais chutões. Sem a posse de bola e longe do gol de Renny Vega, os atacantes chilenos - Alexis Sanchez, Luis Jimenez e Humberto Suazo - assistiam ao surpreendente domínio venezuelano. Eis que aos 34 minutos, o zagueiro Vizcarrondo foi a área, e ajudado pela baixa e fraca defesa andina, encontrou a liberdade necessária para colocar a seleção vinotinto em vantagem. A dupla de volantes do Chile - Carmona e Gary Medel - seguia imprecisa, atrasando uma reação, que só chegaria, na etapa final.


Não foi a primeira vez, tampouco seria a última, então, novamente, Jorge Valdívia ingressou no intervalo - no lugar de Carmona. Gonzalo Jara também deu lugar a Esteban Paredes. O Chile voltava para a segunda etapa em um agressivo esquema 4-3-3, com apenas Gary Medel na contenção; Vidal e Isla recuados para as laterais.Valdivia e Luis Jimenez ficavam com a função de municiar o agora ponta direita, Alexis Sanchez, além da dupla de centroavantes - Suazo e Paredes. A melhora pode ser sentida logo no primeiro minuto, quando Alexis Sanchez quase anotou o gol chileno - salvo em cima da linha por Cichero. Era o começo do bombardeio. Humberto Suazo, logo em seguida acertaria o travessão. Valvidia também teve seu momento quase! ao acertar o travessão de Renny Vega em um lindo chute de três dedos. A pressão já era insustentável e em nova jogada de Alexis Sanchez pela direita, Suazo recebeu na área virando um lindo chute no angulo superior de Renny Vega - a bola ainda resvalaria no maldito travessão. O Chile tirou um pouco a marcha, e acabaria castigado, novamente em uma jogada de bola parada - marcante deficiência do futebol chileno. Arango Cobrou; Claudio Bravo soltou e Cichero só complementou: 2 a 1 e festa bolivariana. O próprio Cichero salvaria outra bola em cima da linha. O Chile ainda reclamaria de um gol mal anulado pelo trio de arbitragem do Equador. No entanto, a sorte já estava destinada e Assim, Cesar Farias, Hugo Chavez e toda a população bolivariana pode então gritar: Que culo tuvimos! estamos na semifinal.

terça-feira, 21 de junho de 2011

EXISTE VIDA APÓS O RIVER?

Por Felipe Bigliazzi

Parecia impossível mas aconteceu. O River Plate tocou mesmo o fundo do poço. Por lá passaram Diego Simeone, Leonardo Astrada, Ángel Cappa...mas ninguém conseguiu dar rumo ao clube mais vencedor da Argentina. José Maria Aguilar passou o bastão, contudo sua nefasta gestão - que levou o clube de Nuñez a uma grave crise financeira - já havia selado o destilo millonário.

Daniel Passarella chegou contratando quase um time inteiro - Carrizo, Maidana, Román, Arano, Acevedo, Pavoni, Caruso...ufa - brigou com Julio Grondona, mas como todos que brigam com o mandachuva vitalício: não teve um final feliz. O certo é que o futebol argentino jamais será o mesmo e apesar das cenas dramáticas que correram o mundo, fica a pergunta: Existe vida na Argentina após o rebaixamento do segundo time mais popular do país?

Não apenas este torneio Clausura, como toda a temporada 2010/2011 foi simbólica ao remarcar uma novo mapa futebolístico que vrio a premiar o projeto mais sério da Argentina. Com um investimento de 9 milhões de pesos em sua categoria de base, o Vélez Sarsfield rubricou o seu posto no futebol argentino com um vice-campeonato no Apertura 2010 - brigando até a última rodada com o Estudiantes - e o título incontestável do Clausura 2011.Tudo começa à partir do comando de jogadores da decáda de ouro do clube de Liniers - Christian Bassedas, Turu Flores e outro jogadores que fizeram parte do título da Libertadores e Intercontinetal em 1994. Em claro consenso, a nova direção de futebol do Vélez tomou a primeira decisão importante: convidar Ricardo Gareca para assumir o cargo de treinador.

Como jogador, Ricardo El Tigre Gareca ficou conhecido por seu gol histórico no Monumental de Nuñez frente ao Peru, que classificou a seleção de Maradona e Bilardo ao mundial de 1986. Atingiu sua plenitude no futebol colombiano, marcado por ser o centroavante do América de Cali, três vezes vice-campeão da Libertadores - 1985,1986,1987. Como treinador teve um começo promissor no Talleres de Cordoba - um ascesso a primeira divisão e o título da Conmebol de 1999- mas ganhou notoriedade apenas com o título peruano - comandando o Universitário de Lima no Apertura 2008.

Eis que em 2009 surgiu a chance de dirigir o seu time de coração. Logo em seu primeiro campeonato chegou a primeira volta olímpica no estádio José Amalfitani. Na última rodada do certamê, o Vélez venceu o Huracán, então lider, por 1 a 0, com gol de Maxi Moralez aos 37 do segundo tempo. O lance até hoje é discutido. Larrivey comete grosseira falta no goleiro Monzón, não convalidada pelo árbitro Brazenas. A jogada segue, mas o goleiro do time dirigido por Ángel Cappa - que contava com Matias Deferico, Mauro Bollati e Javier Pastore - deixaria o gol livre para que Maxi Moralez decretasse o título do Torneio Clausura de 2009. A polêmica maquiou o obvio: que o Vélez Sarsfield era justamente o melhor time do país.

Como uma evolução daquela equipe, é mais do que lógico que a base da equipe ideal do torneio Clausura 2011 seja formada por jogadores do Velez Sarsfield. Seguindo a tendência da última Copa do Mundo, Ricardo Gareca armou o conjunto de Liniers num autentico 4-2-3-1. O veterano, Víctor El Chapa Zapata se tornou a peça mais importantes no esquema do Vélez. No título de 2009, Zapata atuava aberto pela esquerda, auxiliando Maxi Moralez e Hernán Rodrigo López - o então segundo atacante - na armação das jogadas. No entanto, ao perceber a queda de rendimento relacionada a sua idade , Gareca, recuou o ex-jogador do River Plate para formar a dupla de volantes ao lado de Franco Razzotti. Quem acompanhou o Vélez, notou que Zapata era o principal articulador na saída de bola e um dos maiores passadores do futebol argentino.

Outra marca do Vélez vem de seu letal lado esquerdo. Chapa Zapata, além do lateral, Emiliano Papa, e do meia, Ricardo Alvarez formam a trinca canhota do conjunto de Liniers. Elegante, com passadas largas e um repertório técnico digno dos grandes meio-campistas argentinos, Ricky Alvarez foi a maior revelação do primeiro semestre na Argentina, ao substituir Maxi Moralez - de um torneio irregular por suas seguidas lesões - de maneira mais que satisfatória. Não por acaso, Alvarez tornou-se a mais nova incorporação da Internazionale de Milão.

Emiliano Papa ficou conhecido por ser o lateral-esquerdo titular da seleção argentina no início da gestão Maradona. Perto do mundial foi perdendo espaço para Gabriel Heinze e Clemente Rodriguez. Apesar de negado o sonho fugaz de jogar a Copa do Mundo, nesta temporada, Papa voltou a demonstrar que é o melhor lateral esquerdo em atividade na Argentina. Apoiando constantemente o ataque, tornou-se a principal saída pelo lado esquerdo do campo.

O Vélez Sarsfield também teve o arqueiro mais regular e protagonista da defesa decisiva do campeonato. Na antepenúltima rodada, o Velez tinha pela frente o Godoy Cruz de Mendoza - seu fiel perseguidor. O líder se encontrava deprimido, graças a eliminação dramática na Libertadores, frente ao Peñarol. A equipe de Gareca jogava mal, e no ínicio do segundo tempo Barovero fechou o gol com defesas espetaculares. Após um mano a mano incrível com o atacante Ramirez, Barovero ligou um letal contra-ataque, que culminou com o golaço de Juan Manuel Martinez - encaminhando o título.

Não só por este gol de extrema classe, mas por ser o jogador mais desequilibrante do futebol argentino, El burrito - apelido referente a semelhança futebolística com seu ídolo Ariel Ortega - tem cadeira cativa na equipe ideal do torneio Clausura 2011. Tanto atuando como segundo atacante, ou auxiliando na meia cancha , Juan Manuel Martinez demonstrou ser um jogador fundamental e o grande injustiçado na convocação de Sergio Batista para a Copa América de 2011.

O vice-campeão, Lanús, teve como fator fundamental para o seu sucesso a sociedade no meio campo entre Mauro Camoranesi, Agustín Pelletieri e Diego Valeri. O veterano, italo-argentino, recusou uma proposta de seu clube de coração, o River Plate, chegando ao sul da província de Buenos Aires como a principal contratação do conjunto granate. No esquema 4-4-2 de Gabriel Schürrer, o campeão mundial pela Itália, formou ótima dupla de volantes ao lado de Agustín Pelletieri - um dos remanescentes do título do torneio Apertura de 2007.

Mauro Camoranesi, com sua categoria e experiência, foi um dos alicerces para o crescimento futebolístico de Diego Valeri. O jovem meia armador do Lanús, foi contratado pelo Porto, logo após ser considerado o craque do torneio Apertura 2007 - conquistado pelo conjunto granate. Após fracassar em Portugal - e passagem discreta pelo Almería da Espanha - Valeri voltou ao Lanús nesta temporada com a moral ainda baixa. No entanto, foi encontrando o seu futebol elegante, inteligente, que faz lembrar o seu grande ídolo, Juan Román Riquelme. Graças a sua ressurreição, Sérgio Batista o convocou para a Copa América, onde será reserva imediato de Esteban Cambiasso e Ever Banega.

Racing e Argentinos Juniors ficaram longe de disputar o título. O conjunto de La Paternal, graças ao esquema ultra-defensivo - 3-6-1 - imposto por seu treinador, Pedro Troglio, fez do atacante Nicolás Blandi uma espécie de Robinson Crusoé. Não por acaso, o ataque do Argentinos Juniors foi o terceiro menos efetivo durante todo o torneio - 16 gols - ficando à frente apenas de River Plate e All Boys. Com tanta proteção a defesa não seria surpresa que o Argentinos Argentinos chegasse ao final do torneio Apertura como a equipe menos vazada.

O que chama a atençao é o número de gols sofridos: 11 em 19 jogos. Muito deste número vem pela boa atuação de Juan Sabia: o único remanescente do tridente defensivo campeão do Clausura 2010 sob comando de Bichi Borghi - atual treinador do Chile. Com as saídas de Dario Scotti e Matias Caruso, sobrou para Sabia a função de liderar uma jovem e intransponível zaga. Ao seu lado, o promissor Santiago Gentileti alcançou o auge. O zagueiro oriundo das categorias de base do Gimnasia de La Plate, acabou perdendo espaço, obrigando-o a fazer carreira no futebol chileno - Provincial Osorno e O'Higgins. Foi assim, que acabou chamando a atenção de Claúdio Borghi - entao treinador do Argentinos Juniors e com históricos trabalhos no Colo-Colo, que o levou a La Paternal. Contudo, somente neste torneio Apertura de 2011 que ganhou a titularidade e a chance de mostrar seu valor como defensor.

O Racing fez uma campanha frustante. Perdeu 10 jogos e sequer conseguiu a classificação para a Copa Sulamericana. No entanto, a equipe fez bons jogos, e chegou a sonhar em brigar pelo título no início do torneio. Um dos grandes trunfos da equipe de Miguel Ángel Russo foi o setor direito do ataque e a sociedade entre Ivan Pillud e Gabriel Hauche. Em sua segunda temporada com a camiseta do Racing, Ivan Pillud se consolidou como o melhor lateral direito do futebol argentino. Forte no apoio e consistencia na defesa, Pillud é um forte candidato para aposentar o inoxidável Javier Zanetti. Não por acaso, Pillud foi o titular da seleção local de Sergio Batista.

A Academia também teve o artilheiro da competição. Desconhecido pelo público argentino, o colombiano Teófilo Gutierrez chegou a Avellaneda sem grande alarde. Porém, logo no segundo jogo como titular, anotou dois gols, começando uma série impressionante de gols. Chegou ao final da competição com a ótima marca de 11 gols - nenhum em cobranças de penalti - sendo que quatro deles de perna esquerda, outros cinco com a direita e dois de cabeça, demonstrando ser um centroavante de repertório completo e ganhando uma das vagas no ataque da seleção colombiana que disputa a Copa América.

A SELEÇÃO DO CLAUSURA 2011

-----------------------BAROVERO-------------------------------
----------SABIA-------------------GENTILETI------------------
PILLUD-----------------------------------------------------PAPA
-----------CAMORANESI-------------ZAPATA------------------
MARTINEZ---------------VALERI--------------------ALVAREZ
------------------------T.GUTIERREZ-----------------------------

D.T RICARDO GARECA

quinta-feira, 9 de junho de 2011

NUNCA SE INDISPONHA COM O GARÇOM

Por Fúlvio Silas


A vida é um bar. O lema defendido a ferro, fogo - e álcool - pelo cronista e adicto incorrigível, Enrique Symns, pode - e deve - ser defendido em qualquer boteco fuleiro, barzinho ou armazén de bairro. Sim, o bar demonstra lições que colégio de freira, reunião dos alcoólicos anônimos e telecurso 2000 jamais ensinarão. A epopéia da vez abateu-me a princípio do ano passado. Agora, com o metabolisco recomposto posso enfim dizer: Nunca se indisponha com o garçom.


Em uma sexta-feira qualquer, ao lado do comparça inca, cabulei uma tarde laboral afim de degustar do ócio e da vadiagem. Seguindo os passos do ilustre, adentramos a espeluncas inimagináveis, nas proximidades do metrô Ana Rosa. Não vale nem a pena mencionar o ocorrido, cuja experiência só nos fez partir rumo a qualquer point que tivesse cerveja gelada e mini-saias de garbor.


No entanto, nosso amigo inca é um daqueles frescos de carterinha. O torcedor do Alianza Lima, odeia botecos fuleiros ou qualquer outro recinto que disponha de cerveja barata em seu menú. O raciócinio deste peruano, amante do charme da mulher paulistana, é o seguinte: a mulher boa que vai em boteco, já nasceu morta. Certo ou não, segui novamente os passos de dito colega. Abusando de minha falta de contudência sentamos a mesa de um daqueles barzinho da região da Paulista, cheios de burocratas que passam pelo happy hour ora para falar mal do patrão, ora para cheirar o saco do mesmo.


Eis que, sem perceber, ali estavamos, sentados ao lado de gerentes de banco, secretárias ou scort girls de luxo. Era um deleite. Ps: No entanto, quase todas acompanhadas de mocorongos almofadinhas. Olhei para o inca com desdém. Nos restava tomar uma gelada e apreciar. Chamo o garçom e nada. O periano pede com mais afinco e lá vem ele com seu andar pausado e cara de poucos amigos.


- Queremos o litro da Norteña


A saborosa pilsen uruguaia valia a pena. Custava 12 reais enquanto Bohemia e Serramalte saiam a 7,50.




- A Norteña ainda está quente.


Porra, esse cara esta de brincadeira. Esse barzinho metido a besta não tem cerveja gelada. Me antecipei, e só de birra - e por gosto do malte charrua - chamei a quentissima Norteña e um balde de gelo. Entre a demorada chegada da cevada, fui ao banheiro e percebi um maduro casal desfrutando de uma geladissíma Norteña.


Foi o estopim para a guerra. Fui ao caixa reclamar do desalmando. O rapaz todo pomposo, cheio de explicações protocolares pediu desculpas, defendendo o empregado e sugerindo a troca. Já era tarde, pois a cerveja tibia nos esperava.


Filha da puta da minha cara esperei 20 minutos para que a cevada estivesse em temperatura apreciável, enquanto o maldito garçom olhava fixamente como se estivessemos cagados. O que teria feito em represália?? catarrado?? posto Leite de magnésia ou simplesmente almadiçoado a garrafa com sua cara de porco cansado??O inca ao perceber o enredo da peleja nem pensou em colocar em jogo sua saúde intestinal. Seguindo pela vereda irracional traguei solitáriamente o litro de cerveja semi quente.


Por sorte já era hora de partir. O retorno para a Aclimação foi no pior estilo sessão da tarde. O amigo inca dissertava sobre MIFS gostosas, futebol ou qualquer outra prezepada, no momento que o revés se fez notar. Entre bufas e estufas, chegamos ao bairro. Sem titubear corri para a rua Vergueiro, adentrando a primeira padoca ainda aberta. Comprei o isqueiro com o Titanic prestes a se chocar no iceberg; Calça arriada, nem um papel do lado. Ploft vai, ploft vem e a lição do bar esteja mais que aprendida: Nunca se indisponha com o garçom.
































































quinta-feira, 12 de maio de 2011

Charles Bukowski. Eis um dos Poucos escritores que se enquadram na temática carpeteira. Com sua alma emputecida. A escrita ácida. O vício. O sexo. O alcool. Enfim, a vida marginal e anti-careta que este californiano - de alma - nascido na Alemanha descreveu com sabedoria em sua vasta e adorável bibliografia. Em homenagem ao Velho Safado, o trecho final de sua crônica, Sem Meias, publicada na coletânica de contos Fabulário geral do delírio cotidiano - Ereções, Ejaculações e exibicionismo.

- Buk?
- o próprio. acabo de sair da cadeia.
- sim, eu sei. aqui é a Vera.
- sua bucetuda nojenta. você chamou a policía.
- também pudera. você estava simplesmente nojento. eles perguntaram se eu queria dar queixa por estupro. eu disse que não.

Ela havia passado a corrente, mas dava pra se enxergar pela fresta da porta. a garrafa de uísque e a meia dúzia de cervejas giravam pelo corpo todo. estava de roupão entreaberto e vi um seio exuberante fazendo de tudo pra chegar em minha boca.

- Vera, meu anjo - disse - acho que a gente podia ser bons amigos. ótimos, até. eu te perdôo por chamar a polícia. me deixa entrar.
- não, não, Buk, jamais podemos ser amigos! você é uma pessoa horrorosa!

O seio continuava implorando por mim.

- Vera!..
- Não, Buk, pega o que é teu e vai embora, por favor, por favor!

Arranquei a carteira e as meias da mão dela.

- Tá legal, sua baleia, vai tomar no teu cú de bosta!
- Ooooooh! - fez ela, batendo a porta com força.

Enquanto verificava se os 35 ainda estavam na carteira, escutei um disco do Aaron Copland. que farsante. Desci pela alameda, desta vez sem escolta policial. Encontrei o carro pouco mais adiante. Entrei. Liguei o motor. Esperei esquentar. Calhambequezinho legal. Tirei os sapatos, botei as meias, calcei de novo os sapatos e aí, sentindo-me um cidadão outra vez apresentável, dei marcha a ré, saí do meio de dois carros. sem problemas, e subi pela rua escura, rumo ao norte, ao norte, ao norte...rumo a mim mesmo, à minha casa, alguma coisa. o velho calhambeque ainda dava no couro, eu também, com toda a rua pela frente, o sinal fechou, achei metade de um charuto no cinzeiro, acendi, queimei de leve o nariz, o sinal abriu, traguei, expeli a fumaça azulada, pra que perder as esperanças? sempre surgiam novas oportunidades , mesmo frustrado e voltando para o mesmo lugar.

Estranho: volta e meia deixar de foder é melhor que foder.Apesar que posso estar enganado. Em geral dizem que estou.