segunda-feira, 25 de julho de 2011

A VOLTA DA EX-CELESTE

Por Felipe Bigliazzi

"Quinta-feira, contra os uruguaios, foi sublime! A celeste não percebeu ainda que é a ex-celeste. Vive de passado como uma planta de sol. Todas as suas datas são irremediavelmente velhas: - 1930,1950 são as mais recentes. Sua presunção olímpica e mundial não tem um correspondente futebol. E, contra o Brasil, a ex- celeste sentiu que a vitória lhe fugia como água por entre os dedos. Deu-lhe então a fúria da frustração. Batida no futebol, partiu para a luta corporal. Amigos, foi um sururu de antologia" Eis a crônica de Nelson Rodrigues, publicada pela Manchete Esportiva no dia 4 de Abril de 1959. Já havia passado quase uma semana, porém o Anjo Pornográfico, com sua pluma afiada, não perdeu a oportunidade de celebrar a vitória brasileira frente ao eterno fantasma do futebol tupiniquim.


Correu-se mais de cinco décadas, e a celeste, por boa parte desses 52 anos, se comportou como ex-celeste. Nos anos 80, ensaiou uma ressurreição ao vencer a Copa América em duas oportunidades - 83 e 87. Do final dos anos 80, até a chegada de Oscar Tabárez, o Uruguai guardava apenas a honra de ter vencido a Copa América de 95, em pleno estádio Centenário - nos penaltis contra a seleção brasileira. O Próprio Oscar Tabárez havia levado o Uruguai até as oitavas de finais do mundial de 90 - perdendo para a anfitriã, Itália por 2 a 0. Em 94, 98 e 2006 os uruguaios tiveram que assistir a Copa do mundo através da televisão , sendo que em 2002, sequer avançou de fase - empatando frente a Senegal, França e Dinamarca. Eis que veio a geração de Diego Forlán, Lugano, Súarez, e com eles o primeiro sinal da verdadeira ressurreição charrua: o quarto lugar no mundial da África do Sul.


"Queriamos provar que aquilo não foi casualidade" disse Luisito Suárez. 20, 30... 40 mil uruguaios cruzaram o rio de La Plata a fim de acompanhar o capitulo final desta saga. Pela frente, o cavalo paraguaio que ninguém conseguia deter. Sem nenhuma vitória, com duas decisões de penaltis nas costas, a seleção paraguaia chegava ao Monumental de Nuñez com inúmeros problemas. Gerardo Martino escalou uma nova versão defensiva - a quarta formação apresentada em seis jogos disputados - com Dario Verón novamente recuado para zaga junto a Paulo da Silva. Roque Santa Cruz, Lucas Barrios, Aureliano Torres e Marcelo Estigarribia - por opção técnica - seguiam fora, e como previsto, o começo da final foi todo uruguaio. Justo Villar, grande responsável pela presença guaraní nesta final, seguia iluminado. Aos dois minutos, o arqueiro guarani aplicou um mais novo milagre, ao deter uma cabeçada a queima roupa de Diego Lugano.

Foram cinco escanteios até que à abertura do placar. O conjunto charrua entrou em campo no mesmo esquema do rival: O 4-4-2. Alvaro Pereira, pela esquerda, e Alvaro Gonzalez, pela direita, buscavam ganhar o duelo contra os novos laterais do Paraguai - Ivan Piris e Marecos. Diego Perez voltava após suspensão, e junto a seu eterno companheiro, Arévalo Rios, vencia a batalha no meio campo frente a Victor Cacéres e Ortigoza - a dupla de volantes da seleção albiroja. E coube justamente a Ruso Perez, pegar o rebote da defesa paraguaia e servir Luis Suárez. O atacante do Liverpool, as costas de Marecos, dominou, cortou Dario Verón com a direita, e com a canhota, pode enfim vencer Justo Villar.


Corriam 12 minutos, e dali em diante ficou evidente uma das principais virtudes desse, já histórico, selecionado uruguaio: o compromisso de todos na marcação. Nem mesmo o grande craque do time -Diego Forlán - se dá ao luxo de botar a mão na cintura. Junto a seu companheiro de ataque - Luis Súarez - Forlán retrocedia para marcar a saída de bola dos zagueiros paraguaios. Oscar Tabárez ordenou o Uruguai para esperar o Paraguai à 3/4 do campo, especulando para sair em contra-ataques. O Paraguai teve a bola e o campo a seu dispor, mas tanto os meias extremos - Riveros e Enrique Vera - como a dupla de ataque - formada por Zeballos e Haedo Valdez -seguiam se equivocando, desnudando a falta de criatividade.


Ivan Piris, pela direita, era a única peça lúcida da equipe de Gerardo Martino. Contudo, o arqueiro charrua, Muslera, seguia como um mero espectador. Para piorar, a saída de bola da equipe paraguaia ficava a cargo dos limitados volantes guaranis, e estesm pressionados por uma exorbitante maioria de uruguaios, acabaria sentenciado o destino da Copa América. Ortigoza, olhava, pensava, ninguém aparecia... entao Arévalo Rios como um trator, surgiu entre todos, roubando a bola, abrindo toda a defesa para servir Forlán com absoluta astúcia. O melhor jogador do último mundial tinha nova chance de afastar a zica, e de canhota, como nos tempos da Vuvuzelas, estufou a rede de um incrédulo Justo Villar: 2 a 0


O segundo tempo seguia sob controle espiritual do Uruguai. Estigarribia e Lucas Barrios ainda entraram para tentar mudar o panorama, mas o que vimos em Buenos Aires foi a exibição de um time de muita personalidade. Diego Lugano e Coates ganhavam todas as divididas. Maxi Pereira e Martín Cáceres - os laterais - seguiam sem inconvenientes, avançando ao ataque e ganhando tempo a cada falta paraguaia. Ruso Perez e Arévalo Rios travavam no meio campo, triplicando a vantagem uruguaia no score de desarmes.


Luis Súarez e Diego Forlán davam aula para os denominados craques argentinos e brasileiros, com muita disposição para marcar e categoria ímpar para definir a partida. E foi assim, em meio a um mortal contra-ataque e ajeitada precisa de Súarez, que Forlán se viu novamente frente a Justo Villar. Era o último minuto, e com um toque sútil, desatou a já clássica comemoração de seu treinador. El Maestro Tabárez, assim como no mundial, ergueu os dois braços, abriu a boca em formado de ovo, e com uma virada de quartenta e cinco graus, gritou forte para mostrar quem manda na América. Como se não fosse simbólico, o Uruguai saiu de Buenos Aires com tudo. Prêmio de melhor jogador - Luis Súarez. Prêmio de revelação - Coates. E pasmem: prêmio Fair Play. Para desespero de Nelson Rodrigues, a ex-celeste voltou a ser celeste, e assim, 3,3 milhões de uruguaios entonaram: "Volveremos, Volveremos, Volveremos otra vez. Volveremos a ser campeones, como la primera vez!

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