"Cacuia, Cocota, Bancários!!!" este é o grito de guerra de um rapaz que ostenta a camisa do Flamengo, um chinelo havaianas e o colar com as cores da Jamaica. Para atrair os clientes, solta o gogó sem medo de ser feliz. Na hora do rush o anuncio da lotação é ecoado douse vezes - assim se pronuncia 12 no antigo estado da Guanabara. Já se passaram 5 Kombis (principal transporte circular da Ilha do Governador) e nada do aguardado coletivo. Eis que, imponente, surge o 901 - o esperado ônibus que liga a Ilha até a estação ferroviária de Bonsucesso. Sento, disfarço o mal-jeito andreense, sem antes pisar na ponta do sapato de um rapaz roliço e ligeiramente afeminado. Me aproximo e pergunto: " Passa pela Avenida Teixeira Castro, no campo no Bonsucesso?"
Os ponteiros marcavam 13:50 e nossa impaciência tinha um motivo todo especial: o jogo entre Bonsucesso e Boa Vista estava marcado para as 15:00. Já Haviamos saído da Ilha; cruzando a Linha Vermelha chegando sem louvor na Avenida Brasil. O bairro de Bonsucesso é caracterizado por seus antigos galpões industrias, assim como pela cercania de dois dos principais complexos de favelas do Rio de Janeiro. Acima da estação de Bonsucesso é possivel avistar o imponente Complexo do Alemão.
O Complexo, homônimo do maior morro da região, engloba 8 das mais famosas favelas do Rio de Janeiro. Ganhou fama nacional quando em Outubro do ano passado o exercito invadiu o quartel central do Comando Vermelho. Entre a Linha Vermelha e a Avenida Brasil podiamos avistar o complexo da Maré, outra imponente gama da favelas da zona norte fluminense.A Maré já havia ficado para trás quando o tal rapaz roliço de traços levemente afeminados, avisou que a sede do Bonsucesso estava a esquerda.
O clube esta em festa. O Leão da Leopoldina esta de volta a primeira divisão do futebol fluminense após 19 anos de hiato. Na entrada do clube, uma enorme faixa saudava o feito. Do outro lado da calçada o bar e café Bandinha - a Garotinha de Bonsucesso - já faturava com a presença habitual de seus adeptos futebolísticos. Ali, se juntam nos dias de peleja os mais fanáticos torcedores rubro-anil, entre eles, o popular Russo.
Manoel Neto é conhecido como o rei do acesso do futebol carioca. O experiente treinador se gaba do currículo vencedor na série B. Levou em sete oportunidades suas equipes a elite. Robusto e cisudo, Manoel Neto insentiva seus jovens jogadores no aquecimento. Logo ao lado, calado e atento as indicações do treinador esta o astro da equipe: Túlio Maravilha. Aos 42 anos, o Maravilha segue trocando de time; inoxidavelmente rumo ao sonho do milésimo gol. Por essas e outras, o veterano artilheiro é o personagem da tarde. No jogo anterior - contra o Duque de Caxias na baixada fluminense - Túlio anotou o gol de número 972; não foi um gol qualquer, foi de bicicleta. E não é que o Bonsucesso tem no gol de bicicleta uma peculiaridade. Foi ali, no velho campo da rua Teixeira de Castro, que Leonidas da Silva começaria a ensaiar a jogada símbolo de sua mítica carreira.
O artilheiro da copa de 1938 é até hoje o orgulho do Bonsucesso, tanto que o acanhado estádio leva o seu nome. A torcida organizada do clube - Torcida Rubro anil - , enverga uma bandeira de bambú com a caricatura do histórico artilheiro. No entanto, a tarde estava destinada a outro goleador. Nas arquibancadas, inúmeros torcedores vestiam a camiseta do Botafogo para apreciar, homenagiar e agradecer ao principal responsável pelo último titulo nacional conquistado do clube da estrela solitária.
O jogo começa e nenhuma alma presente consegue desgrudar os olhos do folclórico matador. Primeio ataque; um cruzamento despretencioso, e ele, sempre ele, o Maravilha, se antecipando a dupla de zaga do Boa Vista, anota seu gol 973. Sorte de Julinho. Com o passe, o jovem atacante embolsou 100 reais pois Túlio prometeu dar uma nota de garoupa para cada companheiro que lhe dê uma assistencia de gol.
O que se viu nos demais 44 minutos de primeiro tempo foi digno das piores peladas: abuso de individualidade, erros de passes, chutes fortuitos e até canelada. A primeira fase da Copa Rio é melancolica. Simbolo do descaso das federaçoes estaduais no Brasil. Para que os clubes do suburbio e do interior do estado nao fiquem sem agenda após o estadual, a Federação do Rio de janeiro criou o torneio em formato de copa, que classifica o campeão para a Copa do Brasil do ano seguinte ou para a série D nacional - de acordo a escolha previa dos clubes.
No intervalo, um grande movimento de torcedores se abateu sob o campo de Teixeira de Castro. Aposentados mal-avisados e estudantes cabuladores de aula, davam o ar da graça afim de apreciar o desfecho do cotejo. Entre os atrasados, avisto um senhor grisalho com uma boiná vermelha e um tênis sem meia. Não foi preciso muito tempo para que o singelo senhor fosse cercado e saudado por veteranos torcedores. "Esse é o Afonsinho. Jogava pra caralho!" vocifera o desbocado botafoguense.
Sim, era o Afonsinho. O ex-meia do Botafogo estava lá para reverenciar Túlio Maravilha. Sua história é famosa. Virou livro e até documentário. Um símbolo latente de rebeldia em meio aos anos de chumbo. De barba, cabeleira e bigode, Afonsinho era a antítese do desportista tupiniquim. Desafiou Zagallo e parte dos dirigentes do Botafogo. Líder do grupo, Afonsinho começou a cobrar um aumento no bicho apos o titulo carioca de 1968. Foi o estopim para que o clube da estrela solitaria o colasse no limbo. Sem titebear, o jogador entrou na justiça e teve como recompensa o direito de ter o passe em suas mãos.
Nesse entretempo, Afonsinho defendeu as cores do Olaria, Logo ali perto de Bonsucesso, na cativante região da Leopoldina. Com o passe, e a liberdade intacta, ainda teve o prazer de jogar com Pelé em sua última temporada com a camisa do alvinegro de Vila Belmiro. Contudo, naquela tarde, pouco pôde desfrutar do personagem da vez. Túlio saiu logo. Cansado, porém sempre irreverente, cruzou o campo a caminho do vestiário saudado por todos, inclusive por Afonsinho, sem antes dar um abraço - a beira do campo - na dupla desavisada de policiais. Cena insólita de uma tarde de futebol visceral.
O apito final concretizou a esperança do Bonsucesso em avançar na competição.No placar, um singelo 3 a 1. Era a hora de voltar ao Garotinha de Bonsucesso; degustar uma cervejinha e esperar por minha boa e velha kombi carioca. Afonsinho já estava lá. Rodeado de amigos, relembrando anedotas, com um bom copo americano de cevada na mão. Eu não queria partir, as histórias sempre empolgantes... quando um grito desloucado me consumiu. "Olaria, Penha, Ilha do Fundão!!!". Paguei a conta, tomei o último gole e parti.