quarta-feira, 2 de setembro de 2020

A História do Rock uruguaio

 Uruguai latente, talhado sob a sabedoria de Juan Carlos Onetti; a coragem de Pepe Mujica. das veias abertas de Eduardo Galeano. Uruguai de Canario Luna, Fattoruso, El Negro Rada e Jaime Roos. da maestria de Mario Benedetti. A valentia de Obdulio Varella. Uruguai celeste, progressista, de um rio de La Plata que corre ao ritmo da murga, do tango e seu candombe. Uruguai de música rica, que por diversos fatores, não consegue cruzar a fronteira de Rivera e chegar massivamente aos ouvidos dos vizinhos que falam português. 

LOS TNT

Nos anos 60, o rock teve inicio no Uruguai com as mesmas influências e intercâmbios que gozavam os brasileiros: elvismania e a música jovem italiana. O Primeiro grupo uruguaio de sucesso na nova música jovem, batizada como la Nueva Ola, foi o trio Los TNT, formado pelos irmãos Tim, Tony e Nelly Croatto. Nascidos na Itália, se radicaram na cidade de Canelones, na região metropolitana de Montevidéu. Tiveram muito sucesso no início dos anos 60 cantando versões em castelhano de hits do rock americano e  da jovem guarda italiana. Um dos maiores sucessos veio com a versão de La Partita di Pallone de Rita Pavone, que teve muito exito também na Argentina no famoso programa jovem El Club del clan. https://www.youtube.com/watch?v=NvB_3QndauE

LOS IRACUNDOS

Falemos de um dos grandes grupos da história uruguaia: Los Iracundos. Formada no final dos anos 50 em Paysandú, noroeste do país, sob a batuta dos irmãos Leonardo e Eduardo Franco. No começo, a banda tinha como influência a música instrumental ao estilo Ventures e Shadows, além da jovem guarda italiana e heróis do rock americano como Little Richard, Elvis e Bill Harley e seus cometas. Nos 60 adere a beatlemania e a jovem guarda brasileira, com adesão do orgão Hammond em suas composições. O grande sucesso autoral chega em 1968 com o hit Puerto Montt, em homenagem a cidade sulista chilena, que leva os Iracundos a um gigantesco exito comercial em toda América Latina. Nos anos 70 a banda caminha rumo a música romântica, marcada pela voz imponente de Eduardo Franco, vocalista falecido em 1989. https://www.youtube.com/watch?v=a86YLfrTe1Q

LOS SHAKERS

A invasão britãnica tomou de assalto todo mundo e não seria diferente perante a juventude platense. O Uruguai teve em Los Mockers seus Rolling Stones. Em Kano y los Bulldogs seus The Kinks. E nos maravilhosos Shakers seus Beatles. Grupo formado em 1963 pelos irmãos Osvaldo e Hugo Fattoruso em Montevidéu. Talvez a banda mais talentosa da jovem guarda sul-americana, que se radicou em Buenos Aires, gravando filmes e emulando a beatlemania as margens do rio de La Plata com seu hit Rompan Todo, que foi regravada em português pela banda carioca The Bubbles. O grupo terminou em 1968 após a gravacão da sua obra prima La Conferencia Secreta del Toto's Bar, uma ode psicodélica que misturava Beatles, jazz e candombe -  ritmo carnavalesco afrouruguaio. Hugo Fattoruso seguiu sua brilhante carreira pelos Estados Unidos fundindo Jazz, rock e candombe, além de tocar piano no Brasil ao lado de Hermeto Pascoal, Chico Buarque, Milton Nascimento, entre outros. https://www.youtube.com/watch?v=D6VqPh9vP74

EL KINTO

Uma revolução na música uruguaia se despertou com a formação do El Kinto, os criadores do candombe beat, uma mistura de rock psicodélico, candombe e bossa nova. El Kinto durou pouco tempo(67-70), mas tempo suficiente pra revelar dois genias compositores: Eduardo Mateo e El Negro Ruben Rada.El Kinto gravou apenas dois discos: Musicación 4 1/2 e Circa 1968. https://www.youtube.com/watch?v=9dLW8eoqkKo

TOTEM

Com a dissolução da banda, Ruben Rada formou a lendária Totem ao lado dos companheiros Chichito Cabral e Lobito Lagarde, mantendo o legado do candombe beat durante a primeira metade dos anos 70. Totem gravou três verdadeiras obras primas do rock uruguaio misturando rock psicodélico, tambores de Candombe e música pop: Totem de 1971, Descarga e 1972 e Corrupción de 1973. Em meio a grave crise social e  política -  que culminaria na ditadura militar - o Totem se separou com alguns dos seus integrantes se exilando no exterior. https://www.youtube.com/watch?v=5cmF_6UQePg&t=1483s

DIAS DE BLUES

Em contraponto ao Candombe Beat surgiram as primeiras bandas de rock pesado no Uruguai na primeira metade dos anos 70 com grupos como Psiglo e Opus Alfa. Jorge Barral, Daniel Bertolone e Jorge Graf formaram o power trio mais poderoso da época no Uruguai: Dias de Blues. O trio já vinha com a experiência blusera com a excelente banda Opus Alfa. Em Dias de Blues pegaram a influência de Black Sabbath, Led Zeppelin, Deep Purple, além dos argentinos Manal e Pappo´s Blues pra configurar um blues rock mais pesado que retratava nas letras as crônicas urbanas de Montevidéu, recheada de críticas sociais. Com o golpe militar de 1973, a banda se desintegrou com o exílio do trio pela Europa e Austrália. https://www.youtube.com/watch?v=1fP3heokfoo&t=762s 

OPA

Com a ditadura em curso no Uruguai desde 1973, boa parte dos artistas locais foram buscar novos ares criativos no exterior. caso dos geniais irmãos Osvaldo e Hugo Fattoruso, que armaram o projeto OPA nos Estados Unidos. Uma fusão entre jazz, candombe, ritmos latinos e rock progressivo. Gravaram dois discos na segunda metade dos anos 70. a obra prima Magic Bus de 1977 contou com o ingresso de Rubén Rada na percussão e voz, alem das participaçõeS de Airto Moreira e Hermeto Pascoal. Apenas em 1981, com o processo de reabertura política sendo discutida da sociedade Uruguai, que o aclamado projeto OPA pôde enfim se apresentar em Montevidéu , no memorável show realizado no Cine Plaza da capital uruguaia. https://www.youtube.com/watch?v=MDAJrp47i48&pbjreload=101

LOS ESTÓMAGOS

Em 1985, a sociedade uruguaia pôde enfim gozar de liberdade com o fim da ditadura militar que assombrou as terras charruas por longos e tenebrosos 12 anos. Em meio ao processo de redemocratização surgiu uma nova cena rockeira pelo país, influenciada pelo post punk e new wave inglês e espanhol. Bandas como Joy Division, The Cure e Parálisis Permanente serviram de impulso para uma juventude ainda reprimida e assolada por uma grave crise social e econômica nos anos 80. Diante de tal cenário surgem bandas como Los Tontos, Los Traidores, Zero e Los Estómagos. Formada em 1983 na cidade de Pando(Canelones), região metropolitama de Montevidéu, Los Estómagos se converteram na banda de culto dos anos 80 no Uruguai. O disco de estreia "Tango que me hiciste mal de 1985 é umas grandes obras do post punk charrua. Antes da dissolução em 189, los estómagos gravaram outros 3 discos: La Ley es Otra de 86, Los Estómagos de 87 e No habrá condenado que aguante de 88. https://www.youtube.com/watch?v=cu5mpRfsHdw

BUITRES

Com o fim das atividades do Los Estómagos, o vocalista Gabriel Peluffo, o guitarrista  Gustavo Parodi, e o baterista Marcelo Lasso formam o Buitres. Em 30 anos de trajetória, os Buitres se transformaram em umas bandas mais exitosas do Uruguai misturando post punk, punk rock e pop rock. Ao lado de Trostky Vengarán, El Cuarteto de Nos, No Te Va a Gustar e La Vela Puerca consolidam a invasão comercial das bandas uruguaias no mercado argentino durante as décadas de 90 e 2000  https://www.youtube.com/watch?v=aFTRde-DsxM

SUPERSONICOS

Os anos 90 no Uruguai, assim como em todos os países do Cone Sul, foi marcado pela formação de uma cena underground alternativa. bandas como Buenos Muchachos, La Hermana Menor, Trotsky Vengarán, Chicos Elétricos e The Supersonicos marcaram uma nova forma de produção e linguagem no Uruguai. os divertidos Supersonicos sao formados pelos três irmãos Bob Sónico, Leo Sónico e Joe Sónico. Influenciados pela new wave, punk rock, rockabilly e surf music, os Supersonicos já gravaram 8 discos, sendo o primeiro Mundo Pistola em 94, Telekinesis de 2003, Neptunia de 2007 e Uesebé de 2008 como os mais recomendados. Muito bom humor nas letra e nos videoclipes, em clara ode a grupos como Devo, Man Or Astroman? e Siniestro Total. https://www.youtube.com/watch?v=ZkST_tAXmiY

MOTOSIERRA

Nenhuma banda representa melhor o intercâmbio entre o underground uruguaio com o Brasil do que o Motosierra. Banda formada em Montevidéu em 1999 com claras influencias do proto punk americano(MC5, STOOGES E NEW YORK DOLLS), o hardcore e a fusão com metal de bandas como Motorhead e Turbonegro. O Motosierra, capitaneada pelo frontman Carlos Motosierra, teve discos editados no Japão,  Alemanha, Holanda, Finlândia, Argentina(Rastrillo Records) e Brasil( Läjä records). Com muitas turnês pelo Brasil e um split de 2004 ao lado do Forgotten Boys marcaram a ligação do Motosierra com o underground paulista. https://www.youtube.com/watch?v=LWS9SLFeR3Qn

GONZO

O Uruguai também teve seu representante na flamante cena rollinga, que tomou de assalto o rio de La Plata nos anos 90/2000, com Silverados, capitaneada pelo frontman Gonzo. Obvia influência dos Rolling Stones e dos argentinos Ratones Paranoicos e  Viejas Locas. Com o fim dos Silverados, Gonzo Roll saiu em carreira solo, lançando em 2017 o disco "Nadie se salva"onde se nota a soma de riffs rollingas ao hard rock de AC/DC e o glam rock inglês de Slade e Status Quo.

https://www.youtube.com/watch?v=O0B7q4G1H6k

ANTIBANDA

A baterista Camily e o guitarrista Kbza conformam o dueto de street punk Antibanda. Com uma Topic velha, cruzaram em um par de oportunidades a divisa com o Brasil para apresentações por diversas cidades tupiniquins. A primeira delas em 2014, quando gravaram o clipe de Gargantas no estádio Bruno Daniel em Santo André. Camily e Kbza fizeram parte também do power trio Green Gay até 2013. A Antibanda já cruzou o continente em turnês por toda América do Sul e América Central, além de tocar na Europa. Com 4 discos lancados: Antibanda de 2014, Gilipolla Records de 2016, Gatillazo facil de 2018 e Revuelta Latina de 2020. As letras abordam temas sociais o futebol e bebedeiras https://www.youtube.com/watch?v=0vL-nJPlpx0








sábado, 14 de junho de 2014

Uruguai 1 x 3 Costa Rica: Uma Costa Rica organizada surpreende ao prevísivel Uruguai

Apesar da lesão de Suarez, esperávamos um Uruguai distinto em todos os âmbitos. El maestro Tabarez mantinha o 4-4-1-1 com Cebolla Rodriguez e Stuani pelos flancos, Forlán de enlace e Cavani como referência de ataque. Os Ticos, com grande trabalho do colombiano Jorge Luis Pinto, vinha ao Castelão no 5-4-1, com os alas Junior Diaz e  Gamboa presos ao tridente de zagueiros - Umaña, Gonzalez e Duarte - custodiando Stuani e Cebolla Rodriguez. A Costa Rica especulava no começo do jogo a espera de um eventual contra-ataque puxado por Bolaños ou Bryan Ruiz. 
 
O Uruguai assumia um tímido protagonismo, demonstrando uma enorme falta de criatividade. Por sorte, veio um infantil pênalti em Lugano, convertindo por Cavani sem sobressaltos. A vantagem charrua não era baseada em uma superioridade tangível. O Segundo tempo deixava um alerta de que algo deveria melhorar, principalmente na transição do meio-campo.No segundo tempo, a entrosada zaga uruguaia deu uma aula de equívocos. Sob as costas de Martin Cáceres veio o cruzamento que encontrou o centroavante Joel Campbell, o nome do jogo, livre diante da falha cobertura de Lugano e Maxi Pereira: 1x1. Minutos depois, em uma falha clamorosa na bola parada, o zagueiro Duarte anotou a vantagem da seleção da Concacaf.
 
El Maestro ainda tentou mudar o quadro, colocando em campo Lodeiro, Alvaro Pereira e Abel Hernandez nos lugares de Forlán, Gargano e Cebolla Rodriguez.  O Uruguai foi pra cima, impreciso e sem ideias em um 4-1-3-2 com Arevalo sozinho na contenção. Stuani, Lodeiro e Alvaro Pereira  ficavam como armadores e uma nova dupla de ataque foi formada por Cavani e Abel Hernandez. Os Ticos mantinham o 5-4-1 apesar das entradas de Cubero na cabeça de área ao lado de Celso Borges, enquanto Ureña, como ponta direita, se aproveitava da avenida Martin Cáceres. No ultimo lance do jogo, em um rápido conta-ataque, idealizado pelo magistral Campbell, Ureña fechou o caixão charrua sob a impotente saída de Muslera. 3 a 1 para a Costa Rica em um novo capitulo histórico dessa Copa do Mundo.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

QUIOSQUE DE PRAIA, A VERDADEIRA ARQUIBANCADA CARIOCA

Por Felipe Bigliazzi
 
Que Maravilha a nossa linda Guanabara, com seus inverno rigorosíssimo, se desnuda sobre nós com seus 30 e poucos graus.A Ilha do Governador arde que só. Um galeto na brasa, muita batata frita e uma eminente fome de amor; só assim para encarar mais um dia na cidade maravilhosa.  A Baia da Guanabara ao fundo, enquanto a obra prima do hard rock portenho -  Pappo's Blues vol 2 -  seguia  no talo, como manda o figurino. A prova de Histologia malograva o meu furor, então, como de praxe, tive que apelar para o esporte bretão.
 
Eis que, ao abrir as páginas esportivas, me deparo com um clássico sedutor no Maraca, ou melhor dizendo, no New Maraca. Tai uma boa pedida para o fim de tarde: Vasco x Botafogo. Baita jogo. O Vasco em franca recuperação, com Dorival Junior colocando o Gigante da Colina nos eixos; Juninho Pernambucano  desfilando categoria e  a inteligência inoxidável, ao passo que O Fogão buscava reafirmar a condição de líder com Seedorf, Lodeiro, Vitinho e Rafael Marques - quem diria? -, formado o quarteto mais efetivo do campeonato.
 
Quantos atrativos, não é mesmo? Agora só falta buscar informações sobre a venda de ingressos para este cotejo. Vamos lá, o Maraca é nosso! No rodapé do diário Lance! as informações para o torcedor : "O clássico entre Vasco e Botafogo promete ter casa cheia. Até a noite deste sábado, cerca de 20 mil ingressos já haviam sido vendidos para o confronto, que será às 18h30 de domingo, no Maracanã.Além deste número, somam-se 9.500 bilhetes de gratuidades, cadeiras cativas e cortesias que foram distribuídos. Neste sábado, o horário de vendas foi estendido em duas horas. No domingo, as bilheterias do Maracanã abrirão uma hora mais cedo, às 9h, e o atendimento será até 17h. Em São Januário e General Severiano, sedes de Vasco e Botafogo, respectivamente, a venda será feita entre 10h e 12h. E MAIS: 18.000 ingressos já foram vendidos. Os ingressos mais baratos custarão 80 REAIS". é isso mesmo que eu li? Acho que é a cadeira coberta, a cativa, o camarote do Eike Batista, só pode ser. "80 reais, 80 merréis, 80 mangustos!!!!P-O-R-R-A!!!" eis que me baixa um Afanasio Jazadji, um Alborghetti, um Away de Petrópolis. Nada mais justificável. O Governo gasta 1,3 bilhões para reformar o Maracanã com dinheiro público, entrega o estádio para os donos do Jatinho que leva para cima e para baixo o  excelentíssimo Sergio Cabral, e quem paga a conta é que o torcedor carioca. Que coisa formidável!!!O New Maracanã realmente se tornou símbolo do pior que temos no Brasil. Os mocorongos almofadinhas dominaram o país, dominaram o nosso futebol. Viva o Consorcio do New Maracanã, pregando o modernismo com Preços de Champions League e serviço de Copa Kaiser.
 
Com a elitização da arquibancada só nos resta o boteco, o quiosque a beira da praia. Aqui esta a verdadeira arquibancada do carioca. Sem tempo para lamentar, visto o chileno de dedo, desço com desgosto as ladeiras do Jardim Guanabara rumo a Praia da Bica. Os ponteiros já marcavam 18h10, e a torcida vascaína tomava o Quiosque do Osmar como se fosse São Januário. Poucos botafoguenses no local, contei dois ou três solitários alvinegros. Peço uma cerveja e um amendoim japonês. A transmissão da Sportv já havia começado. Faltavam poucos minutos para o inicio da peleja e o clima no estádio era parecido a um Olaria x Madureira. O estádio vazio, triste, sem alma. o que fizeram contigo futebol brasileiro? Os canalhas festejam. os donos de bar ainda mais.
 
 Em poucos minutos o quiosque esta completamente tomado. O jogo se inicia. ambas equipes atuando no 4-2-3-1. O Botafogo manda no jogo. Vitinho e Seedorf dando um baile pela direita. O pobre lateral peruano Yotun começa a ser hostilizado pelo cachaça vascaíno ao meu lado: "esse Yotun é uma merda. o cara é titular da seleção do Peru? Por isso que o Peru esta uma merda mesmo". Eis que o Vasco abre o placar. André cabeceia e o bar vem abaixo: "gooool!Vamo Vasco" A bandeira já estava levantada. Impedimento assinalado. "Eu te pago 3 cervejas se estiver impedido" grita o cruzmaltino se dirigindo a minoria botafoguense. 1 minutos depois, Rafael Marques sai na cara do gol e ta lá: 1 x0 Fogão! Lamentação e mais xingamentos: "essa zaga do Vasco é uma merda mesmo!" O bebum seguia xingando meio mundo: Sandro Silva, Renato Silva, Eder Luis...ninguém escapava do implacável humor etílico do conviva. Eis que Seedorf aparece na cara do gol, toque por cima, uma pintura, pura categoria: 2 x 0 e mais revolta." Porra, o Juninho não merece jogar ao lados desses merdas. Timinho sem vergonha". O personagem do bar não contava com o erro na saída de bola do Botafogo, nem mesmo na boa jogada de Eder Luis; Juninho girou magistralmente entre Bolívar e Nei para servir o gol para André: 2x1 e o Vasco seguia vivo para os segundo tempo.
 
Baita jogo. baita noite no Rio de Janeiro. 3 latões e a brisa marina acalmava a nossa malograda  alma de amor. O Segundo tempo vem, e com ele mais cerveja e mais amendoim japonês. Já não estava tão sóbrio quando veio o empate vascaíno. "Goooool. Cadê o líder?" O pau d'água seguia gritando, falando groselha, quando Rafael Marques limpou Nei e colocou na gaveta: um golaço!"Olha o líder ai seu mané" retrucava o botafoguense ao lado. Que jogo senhores!!!. Mais cerveja, mais amendoim e o jogo foi caindo de ritmo, assim como a noite na Ilha do Governador. O Cristo Iluminado, dividia as atenções com as mariposas e o Pão de Açúcar. O final se aproxima. Uma buzina azucrina o bar. Uma senhora parada no meio da avenida estreita, espera por alguém que insiste em não se apresentar. E segue a buzina... baaaaaaaaaaaaaam, baaaaaaaaam, o bar já se irrita,  é quase impossível seguir a narração de Luis Carlos Junior. O apito final se aproxima, e com ele o busão da linha 324; aquele mesmo que vai do Castelo para a Ribeira. Com ele vem a batida, a confusão, a lateral do gol já esta fodida. é hora de partir!o Fogão ainda é líder e todos, vascaínos e botafoguenses, unidos como num reclame de cerveja, estão em comunhão  para  tentar desentalar a lataria do gol 2004 da cor prata.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

UMA TARDE EM BONSUCESSO



Por Felipe Bigliazzi


"Cacuia, Cocota, Bancários!!!" este é o grito de guerra de um rapaz que ostenta a camisa do Flamengo, um chinelo havaianas e o colar com as cores da Jamaica. Para atrair os clientes, solta o gogó sem medo de ser feliz. Na hora do rush o anuncio da lotação é ecoado douse vezes - assim se pronuncia 12 no antigo estado da Guanabara. Já se passaram 5 Kombis (principal transporte circular da Ilha do Governador) e nada do aguardado coletivo. Eis que, imponente, surge o 901 - o esperado ônibus que liga a Ilha até a estação ferroviária de Bonsucesso. Sento, disfarço o mal-jeito andreense, sem antes pisar na ponta do sapato de um rapaz roliço e ligeiramente afeminado. Me aproximo e pergunto: " Passa pela Avenida Teixeira Castro, no campo no Bonsucesso?"

Os ponteiros marcavam 13:50 e nossa impaciência tinha um motivo todo especial: o jogo entre Bonsucesso e Boa Vista estava marcado para as 15:00. Já Haviamos saído da Ilha; cruzando a Linha Vermelha chegando sem louvor na Avenida Brasil. O bairro de Bonsucesso é caracterizado por seus antigos galpões industrias, assim como pela cercania de dois dos principais complexos de favelas do Rio de Janeiro. Acima da estação de Bonsucesso é possivel avistar o imponente Complexo do Alemão.

O Complexo, homônimo do maior morro da região, engloba 8 das mais famosas favelas do Rio de Janeiro. Ganhou fama nacional quando em Outubro do ano passado o exercito invadiu o quartel central do Comando Vermelho. Entre a Linha Vermelha e a Avenida Brasil podiamos avistar o complexo da Maré, outra imponente gama da favelas da zona norte fluminense.A Maré  já havia ficado para trás quando o tal rapaz roliço de traços levemente afeminados, avisou que a sede do Bonsucesso estava a esquerda.

O clube esta em festa. O Leão da Leopoldina esta de volta a primeira divisão do futebol fluminense  após 19 anos de hiato. Na entrada do clube, uma enorme faixa saudava o feito. Do outro lado da calçada o bar e café Bandinha - a Garotinha de Bonsucesso - já faturava com a presença habitual de seus adeptos futebolísticos. Ali, se juntam nos dias de peleja os mais fanáticos torcedores rubro-anil, entre eles, o popular Russo.

Este senhor de 69 anos não perde um jogo, tampouco o bom humor. Sentado na bancada, do lado de fora do bar, Russo desfruta de um bom cafezinho, sem demonstrar ansiedade para o início do embate. Eis que, levanta-se suavemente, sem antes pendurar a conta - contrariando o anuncio do balcão anti-fiado -  rumando em direção a entrada do clube. Solicito e boa praça, Russo tem a triste fama de pão duro, portanto, vai logo avisando ao bilheteiro: "Eu não pago entrada hoje!". Segundo Russo o sucesso do time tem dois responsáveis: " Primeiro o Zeca Simões - o presidente. Assumiu o clube num bagaço. Até a iluminação do campo levaram. Ai ele trouxe o Manoel Neto que estava em Portugal e tudo começou a engrenar. Se não fosse ele o Bonsucesso não subiria".

Manoel Neto é conhecido como o rei do acesso do futebol carioca. O experiente treinador se gaba do currículo vencedor na série B. Levou em sete oportunidades suas equipes a elite. Robusto e cisudo, Manoel Neto insentiva seus jovens jogadores no aquecimento. Logo ao lado, calado e atento as indicações do treinador esta o astro da equipe: Túlio Maravilha. Aos 42 anos, o Maravilha segue trocando de time; inoxidavelmente rumo ao sonho do milésimo gol. Por essas e outras, o veterano artilheiro é o personagem da tarde. No jogo anterior - contra o Duque de Caxias na baixada fluminense - Túlio anotou o gol de número 972; não foi um gol qualquer, foi de bicicleta. E não é que o Bonsucesso tem no gol de bicicleta uma peculiaridade. Foi ali, no velho campo da rua Teixeira de Castro, que Leonidas da Silva começaria a ensaiar a jogada símbolo de sua mítica carreira.

O artilheiro da copa de 1938 é até hoje o orgulho do Bonsucesso, tanto que o acanhado estádio leva o seu nome. A torcida organizada do clube - Torcida Rubro anil - , enverga uma bandeira de bambú com a caricatura do histórico artilheiro. No entanto, a tarde estava destinada a outro goleador. Nas arquibancadas, inúmeros torcedores vestiam a camiseta do Botafogo para apreciar, homenagiar e agradecer ao principal responsável pelo último titulo nacional conquistado do clube da estrela solitária.

O jogo começa e nenhuma alma presente consegue desgrudar os olhos do folclórico matador. Primeio ataque; um cruzamento despretencioso, e ele, sempre ele, o Maravilha, se antecipando a dupla de zaga do Boa Vista, anota seu gol 973. Sorte de Julinho. Com o passe, o jovem atacante embolsou 100 reais pois Túlio prometeu dar uma nota de garoupa para cada companheiro que lhe dê uma assistencia de gol.

O que se viu nos demais 44 minutos de primeiro tempo foi digno das piores peladas: abuso de individualidade, erros de passes, chutes fortuitos e até canelada. A primeira fase da Copa Rio é melancolica. Simbolo do descaso das federaçoes estaduais no Brasil. Para que os clubes do suburbio e do interior do estado nao fiquem sem agenda após o estadual, a Federação do Rio de janeiro criou o torneio em formato de copa, que classifica o campeão para a Copa do Brasil do ano seguinte ou para a série D nacional - de acordo a escolha previa dos clubes.

No intervalo, um grande movimento de torcedores se abateu sob o campo de Teixeira de Castro. Aposentados mal-avisados e estudantes cabuladores de aula, davam o ar da graça afim de apreciar o desfecho do cotejo. Entre os atrasados, avisto um senhor grisalho com uma boiná vermelha e um tênis sem meia. Não foi preciso muito tempo para que o singelo senhor fosse cercado e saudado por veteranos torcedores. "Esse é o Afonsinho. Jogava pra caralho!" vocifera o desbocado botafoguense.

Sim, era o Afonsinho. O ex-meia do Botafogo  estava lá para reverenciar Túlio Maravilha. Sua história é famosa. Virou livro e até documentário. Um símbolo latente de rebeldia em meio aos anos de chumbo. De barba, cabeleira e bigode, Afonsinho era a antítese do desportista tupiniquim. Desafiou Zagallo e parte dos dirigentes do Botafogo. Líder do grupo, Afonsinho começou a cobrar um aumento no bicho apos o titulo carioca de 1968. Foi o estopim para que o clube da estrela solitaria o colasse no limbo. Sem titebear, o jogador entrou na justiça  e teve como recompensa o direito de ter o passe em suas mãos.

Nesse entretempo, Afonsinho defendeu as cores do Olaria, Logo ali perto de Bonsucesso, na cativante região da Leopoldina. Com o passe, e a liberdade intacta, ainda teve o prazer de jogar com Pelé em sua última temporada com a camisa do alvinegro de Vila Belmiro. Contudo, naquela tarde, pouco pôde desfrutar do personagem da vez. Túlio saiu logo. Cansado, porém sempre irreverente, cruzou o campo a caminho do vestiário saudado por todos, inclusive por Afonsinho, sem antes dar um abraço - a beira do campo - na dupla desavisada de policiais. Cena insólita de uma tarde de futebol visceral. 
O apito final concretizou a esperança do Bonsucesso em avançar na competição.No placar, um singelo 3 a 1. Era a hora de voltar ao Garotinha de Bonsucesso; degustar uma cervejinha e esperar por minha boa e velha kombi carioca. Afonsinho já estava lá. Rodeado de amigos, relembrando anedotas, com um bom copo americano de cevada na mão. Eu não queria partir, as histórias sempre empolgantes... quando um grito desloucado me consumiu. "Olaria, Penha, Ilha do Fundão!!!". Paguei a conta, tomei o último gole e parti.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

MENOTISMO OU BILARDISMO? A ERA SABELLA!

Menotismo ou bilardismo? De que clássica frente ideológica terá em prática a nova seleção argentina. Sabella não renega a importancia que Carlos Salvador Bilardo teve em sua carreira. Sob comando de Bilardo, Pachorra Sabella - apelido oriundo de seu estilo cerebral de jogar - conheceu a glória, ao conquistar o Campeonato argentino de 82 para o Estudiantes de La Plata. No entanto, Sabella quer se distanciar da chamada Geração de 86.Após o fracasso de Coco Basile, Julio Grondona convocou Bilardo como manager de todas as seleções da AFA. Dava inicio o projeto batizado como Geração de 86 - com parte dos jogadores campeões do mundo no México comandando os selecionados nacionais. Tatá Brown e Garré ficaram com as seleções sub 17 e sub 20. Sergio Batista com o projeto olímpico, enquanto Maradona - com o Negro Enrique como auxiliar técnico - a frente da seleção principal.

Sabella, apesar de tocar a gloria sob a batuta de Bilardo no Estudiantes, foi excluido da lista final para o Mundial de 86. Ao final de sua carreira como futebolista, Sabella se aproximou de Daniel Passarella, símbolo da era Menotti - 1975 à 1982. Junto a seu ex-companheiro de River Plate - clube que o revelou em meados dos anos 70 - Sabella trabalhou como assistente técnico da seleção nacional - entre 95 e 98.

Em seus dois primeiros jogos sob o comando da seleção argentina, ainda nao pudemos observar qualquer ideia de jogo ou resquicios de um pragmatismo bilardista ou um virtuosismo menotista. A equipe variou táticamente de um 4-3-2-1 da estreia contra a Venezuela para um 3-1-4-2 frente aos nigerianos. Tudo tem um claro motivo: resolver a dependência de Lionel Messi. Na última Copa América ficou claro o desespero do craque do Barcelona, em retroceder até o meio campo para tentar solucionar os problemas de criação da equipe.

Contra a Venezuela vimos os mesmos problemas. Sabella escalou Gonzalo Higuain como único atacante, tendo Di Maria, pela esquerda, e Messi, pela direita como seus dois armadores. O meio campo ainda contava com Mascherano na contensão; Lucho Gonzales, pela direita, e Ricky Alvarez, pela esquerda, como volantes de mais chegada. A ideia falhou, já que Messi voltava para auxiliar na saída de jogo ineficaz, e assim, agarrava a bola longe do gol adversario.

Contra a Nigéria, Sabella testou uma nova formação. Era o regresso de uma defesa com três zagueiros. Demichelis como líbero; Otamendi - autor do gol da vitória contra os venezuelanos - e Burdisso como stoppers. Mascherano se manteve como volante central, enquanto uma linha de 4 jogadores passaria a pressionar o adversario ainda em seu campo. Os laterais, Zabeleta e Marcos Rojo, passaram a atuar como alas, em linha com Di Maria, pela esquerda, e Principito Sosa - lançado no Estudiantes pelo proprio Sabella - pela direita.Eis que por destino, ou uma virtual coincidência, Messi atuando como segundo atacante, ao lado de Higuian, encontrou o seu melhor futebol.

Para os confrontos contra o Brasil, Sabella não poderá contar com Juan Román Riquelme e Juan Sebabstián Verón - ambos com problemas fisicos. Assim, a equipe argentina deverá entrar no estádio Mario Alberto Kempes de Córdoba no esquema 3-2-4-1com Agustín Orión do Boca Juniors no gol. Sebastián Dominguez, Leandro Desábato e German Ré como zagueiros. A dupla de volantes será a mesma do último campeão argentino: Hector Canteros e Victor Zapata do Veléz Sarsfield. A frente uma linha de 4 armadores fomada pelos alas Ivan Pillud, do Racing pela direita e Emiliano Papa, do Vélez Sarsfield pela esquerda, somada a sociedade entre Augusto Fernandez pela direita, e Juan Manuel "El burrito" Martinez, pela esquerda. O centroavante será Mauro Boselli, que desde seu regresso ao Estudiantes de La Plata não conseguiu balançar a rede.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

A VOLTA DA EX-CELESTE

Por Felipe Bigliazzi

"Quinta-feira, contra os uruguaios, foi sublime! A celeste não percebeu ainda que é a ex-celeste. Vive de passado como uma planta de sol. Todas as suas datas são irremediavelmente velhas: - 1930,1950 são as mais recentes. Sua presunção olímpica e mundial não tem um correspondente futebol. E, contra o Brasil, a ex- celeste sentiu que a vitória lhe fugia como água por entre os dedos. Deu-lhe então a fúria da frustração. Batida no futebol, partiu para a luta corporal. Amigos, foi um sururu de antologia" Eis a crônica de Nelson Rodrigues, publicada pela Manchete Esportiva no dia 4 de Abril de 1959. Já havia passado quase uma semana, porém o Anjo Pornográfico, com sua pluma afiada, não perdeu a oportunidade de celebrar a vitória brasileira frente ao eterno fantasma do futebol tupiniquim.


Correu-se mais de cinco décadas, e a celeste, por boa parte desses 52 anos, se comportou como ex-celeste. Nos anos 80, ensaiou uma ressurreição ao vencer a Copa América em duas oportunidades - 83 e 87. Do final dos anos 80, até a chegada de Oscar Tabárez, o Uruguai guardava apenas a honra de ter vencido a Copa América de 95, em pleno estádio Centenário - nos penaltis contra a seleção brasileira. O Próprio Oscar Tabárez havia levado o Uruguai até as oitavas de finais do mundial de 90 - perdendo para a anfitriã, Itália por 2 a 0. Em 94, 98 e 2006 os uruguaios tiveram que assistir a Copa do mundo através da televisão , sendo que em 2002, sequer avançou de fase - empatando frente a Senegal, França e Dinamarca. Eis que veio a geração de Diego Forlán, Lugano, Súarez, e com eles o primeiro sinal da verdadeira ressurreição charrua: o quarto lugar no mundial da África do Sul.


"Queriamos provar que aquilo não foi casualidade" disse Luisito Suárez. 20, 30... 40 mil uruguaios cruzaram o rio de La Plata a fim de acompanhar o capitulo final desta saga. Pela frente, o cavalo paraguaio que ninguém conseguia deter. Sem nenhuma vitória, com duas decisões de penaltis nas costas, a seleção paraguaia chegava ao Monumental de Nuñez com inúmeros problemas. Gerardo Martino escalou uma nova versão defensiva - a quarta formação apresentada em seis jogos disputados - com Dario Verón novamente recuado para zaga junto a Paulo da Silva. Roque Santa Cruz, Lucas Barrios, Aureliano Torres e Marcelo Estigarribia - por opção técnica - seguiam fora, e como previsto, o começo da final foi todo uruguaio. Justo Villar, grande responsável pela presença guaraní nesta final, seguia iluminado. Aos dois minutos, o arqueiro guarani aplicou um mais novo milagre, ao deter uma cabeçada a queima roupa de Diego Lugano.

Foram cinco escanteios até que à abertura do placar. O conjunto charrua entrou em campo no mesmo esquema do rival: O 4-4-2. Alvaro Pereira, pela esquerda, e Alvaro Gonzalez, pela direita, buscavam ganhar o duelo contra os novos laterais do Paraguai - Ivan Piris e Marecos. Diego Perez voltava após suspensão, e junto a seu eterno companheiro, Arévalo Rios, vencia a batalha no meio campo frente a Victor Cacéres e Ortigoza - a dupla de volantes da seleção albiroja. E coube justamente a Ruso Perez, pegar o rebote da defesa paraguaia e servir Luis Suárez. O atacante do Liverpool, as costas de Marecos, dominou, cortou Dario Verón com a direita, e com a canhota, pode enfim vencer Justo Villar.


Corriam 12 minutos, e dali em diante ficou evidente uma das principais virtudes desse, já histórico, selecionado uruguaio: o compromisso de todos na marcação. Nem mesmo o grande craque do time -Diego Forlán - se dá ao luxo de botar a mão na cintura. Junto a seu companheiro de ataque - Luis Súarez - Forlán retrocedia para marcar a saída de bola dos zagueiros paraguaios. Oscar Tabárez ordenou o Uruguai para esperar o Paraguai à 3/4 do campo, especulando para sair em contra-ataques. O Paraguai teve a bola e o campo a seu dispor, mas tanto os meias extremos - Riveros e Enrique Vera - como a dupla de ataque - formada por Zeballos e Haedo Valdez -seguiam se equivocando, desnudando a falta de criatividade.


Ivan Piris, pela direita, era a única peça lúcida da equipe de Gerardo Martino. Contudo, o arqueiro charrua, Muslera, seguia como um mero espectador. Para piorar, a saída de bola da equipe paraguaia ficava a cargo dos limitados volantes guaranis, e estesm pressionados por uma exorbitante maioria de uruguaios, acabaria sentenciado o destino da Copa América. Ortigoza, olhava, pensava, ninguém aparecia... entao Arévalo Rios como um trator, surgiu entre todos, roubando a bola, abrindo toda a defesa para servir Forlán com absoluta astúcia. O melhor jogador do último mundial tinha nova chance de afastar a zica, e de canhota, como nos tempos da Vuvuzelas, estufou a rede de um incrédulo Justo Villar: 2 a 0


O segundo tempo seguia sob controle espiritual do Uruguai. Estigarribia e Lucas Barrios ainda entraram para tentar mudar o panorama, mas o que vimos em Buenos Aires foi a exibição de um time de muita personalidade. Diego Lugano e Coates ganhavam todas as divididas. Maxi Pereira e Martín Cáceres - os laterais - seguiam sem inconvenientes, avançando ao ataque e ganhando tempo a cada falta paraguaia. Ruso Perez e Arévalo Rios travavam no meio campo, triplicando a vantagem uruguaia no score de desarmes.


Luis Súarez e Diego Forlán davam aula para os denominados craques argentinos e brasileiros, com muita disposição para marcar e categoria ímpar para definir a partida. E foi assim, em meio a um mortal contra-ataque e ajeitada precisa de Súarez, que Forlán se viu novamente frente a Justo Villar. Era o último minuto, e com um toque sútil, desatou a já clássica comemoração de seu treinador. El Maestro Tabárez, assim como no mundial, ergueu os dois braços, abriu a boca em formado de ovo, e com uma virada de quartenta e cinco graus, gritou forte para mostrar quem manda na América. Como se não fosse simbólico, o Uruguai saiu de Buenos Aires com tudo. Prêmio de melhor jogador - Luis Súarez. Prêmio de revelação - Coates. E pasmem: prêmio Fair Play. Para desespero de Nelson Rodrigues, a ex-celeste voltou a ser celeste, e assim, 3,3 milhões de uruguaios entonaram: "Volveremos, Volveremos, Volveremos otra vez. Volveremos a ser campeones, como la primera vez!

quarta-feira, 20 de julho de 2011

QUE CULO TUVIMOS!

Por Felipe Bigliazzi

Hoy tuvimos culo! Eis a honesta explicação que Gerardo Martino - treinador da seleção paraguaia -, deu para a classificação de sua equipe frente à seleção da CBF.Em bom portuñol: que baita sorte tivemos. O argentino - que desde 2006 comanda o Paraguai - ao dizer esta pérola, assumiu sem pudor algum, que tinha como estratégia esperar o conjunto canarinho dentro de seu campo. Sem poder contar com Roque Santa Cruz - lesionado - Tatá Martino apostou na dupla de ataque formada por Lucas Barrios e Haedo Valdez, somada as já tradicionais linhas de quatro jogadores. A primeira linha de marcação continha Marcelo Estigarribia - pela esquerda para segurar Maicon; Enrique Vera, pela direita, para duelar com André Santos, enquanto Riveros e Cacéres, por dentro, combateriam os avanços de Paulo Henrique Ganso - e as eventuais subidas de Ramires. No entanto, o dueto de atacantes do Paraguai viu o Brasil começar o cotejo dentro do campo paraguaio. Neymar, Robinho e Alexandre Pato, trocando seguidamente de posição, induziam a primeira linha do Paraguai ao erro. Neymar pressionava Dario Verón. Robinho fazia o mesmo pela faixa direita, contra o lateral esquerdo, Aureliano Torres, enquanto Pato partia para cima da dupla de zagueiros do Paraguai - Alcaraz e Paulo Da Silva. A idéia daria certo. Em ambas jogadas oriundas de roubadas rápidas em campo guaraní, Neymar teve chance de abrir o placar; a segunda, após passe cirúrgico de Robinho.


O Paraguai seguiu durante todo o primeiro tempo, colado em seu campo, sofrendo a cada avanço tupiniquim. Marcelo Estigarriba, tão inspirado no confronto frente aos brasileiros na primeira fase, seguia omisso, sem conseguir desafogar a pressão que seu time sofria. Aquela altura, Justo Villar já era a figura guaraní, ao defender a queima roupa um carrinho, quase certeiro de Lúcio - após cruzamento na área. O segundo tempo seguiu sob o ritmo de um verdadeiro monólogo brasileiro. A única mudança foi à entrada de Barreto, no lugar do lesionado, Enrique Vera. Neymar, novamente, teve a chance de abrir o placar, quando cortou Paulo Da Silva e arrematou para fora. O volume de jogo brasileiro era enorme. Paulo Henrique Ganso fez Villar aplicar seu segundo milagre, ao desviar um tiro certeiro que tinha destino certo. O terceiro milagre viria minutos depois, quando em um cruzamento na área, Alexandre Pato dominou de frente para o arco, mas o arqueiro paraguaio, com muita astúcia, fechou o ângulo no momento exato. O atacante do Milan ainda teria uma nova chance, só que outra vez – sim, ele - Justo Villar saiu em seus pés desviando a redonda para a linha de fundo. O destino já estava escrito, e a prorrogação era realmente inevitável. Fred, que havia entrado no lugar de Alexandre Pato, chegou a vencer o paredão Villar, cabeceando sob o arqueiro após escanteio, mas Barreto, para alegria de Larissa Riquelme, conseguiu sacar em cima da linha. A prorrogação seguia sob domínio tupiniquim. Eis que surgiu o insólito arranca rabo. Resultado: Lucas Leiva, de tímida atuação - assim como o zagueiro paraguaio Alcaraz - foi para o chuveiro mais cedo. O fato esfriou o Brasil, e a disputa de penalti chegava acompanhada de mal pressagio. Quatro brasileiros tiveram a chance de vencer Justo Villar, mas a imperícia, o morrinho artilheiro e os deuses do futebol, já haviam determinado que o Paraguai era o semifinalista.


Tatá Martino foi o autor da frase titulo deste artigo, mas em menor ênfase, Sérgio Markarián também poderia ter dito: Hoy Tuvimos Culo! Já que Peru e Colômbia fizeram um jogo equilibrado; marcado pelo final de jogo não apto para cardíacos. O penalti desperdiçado por Radamel Falcão Garcia, e as duas bolas na trave - a segunda de Freddy Garin aos 45 do segundo tempo, pareciam dizer que a Colômbia merecia melhor sorte.Apesar da pressão agônica, o que se viu no estádio Mario Kempes foi uma batalha de meio campo. El Mago Markarian definiu na preleção a quem cada jogador peruano deveria marcar. Juan Manuel Vargas, pela esquerda, e Luis Advíncula, pela direita, bloquearam as subidas dos laterais colombianos - Camilo Zuñiga e Pablo Armero. William Chiroque, que ganhou a posição no meio campo – deixando Michael Guvera e Carlos Lobatón no banco de reservas - teve a função de acompanhar o melhor volante cafeteiro - o canhoto Freddy Guarín -, enquanto Paulo Cruzado, na meia esquerda, marcava a finco, ao volante Abel Aguilar. Para marcar o tridente ofensivo da Colômbia, Sergio Markarián apostou no poder de marcação de seus laterais. Sem poder contar com Giancarlo Carmona, o treinador uruguaio escalou o lateral-direito, Enzo Revoredo, para conter as ações de Adrián Ramos. O extremo-esquerdo, Dayro Moreno - o melhor colombiano na partida - teve a marcação de Walter Vílchez. Justamente por este setor, a Colômbia teve seus melhores momentos na primeira etapa. O centroavante Radamel Falcão, se encontrava inerte, isolado em meio a marcação da dupla de zagueiros - Christian Ramos e Alberto Rodríguez. A primeira chance cafeteira surgiu em uma cobrança rápida de Guarin, pela faixa esquerda do ataque, encontrando Armero, que chutou desviado, assustando o arqueiro Raúl Fernandez.


O ataque peruano se resumia aos avanços de Juan Manuel Vargas. Nos pés do ala-esquerdo da Fiorentina surgiram as singulares chances do conjunto inca. No intervalo, Markarian sacou Luis Advincula - de apagado primeiro tempo - para a entrada de Lobatón. Assim, Chiroque teve mais liberdade pela ponta direita; e ali, por dito setor, o Peru construiu um bom repertorio de jogadas na primeira metade da segunda etapa. O cotejo seguia sob controle, quando de um pelotazo, Radamel Falcão se aproveitando de falha de Alberto Rodriguez, entrou na área, e quando iria anotar a vantagem cafeteira, acabou sendo derrubado pelo mesmo zagueiro trapalhão. Na cobrança, a bola desviada para fora, mantinha a ilusão inca. Ilusão essa que quase foi desfeita no último minuto do jogo, quando Freddy Guarín arrancou pela esquerda, cortou Revoredo, driblou Balbín, até parar no travessão do gol defendido por Raúl Fernandez. Na prorrogação, o jogo seguia amarrado, até que o arqueiro Luis Martinez resolveu vestir o traje de vilão. Após cruzamento na área, o arqueiro do Once Caldas se atrapalhou, esbarrando em Mario Yepes, e deixando a bola e o gol aberto. Lobatón, que não tinha nada com isso, encheu o pé, inflando a rede colombiana: 1 a 0 para o Peru. A vantagem peruana desatou o desanimo colombiano, que sem reação viu o seu arqueiro Martinez, entregar nos pés do até então sumido, Paolo Guerrero, a esperança de uma virada. O centroavante rolou para Loco Vargas, que sem titubear, fuzilou o arco com seu potente tiro de canhota: 2 a 0.


A seqüência das quartas de finais, nos apresentava o grande duelo desta fase: Argentina e Uruguai. A grande batalha do Rio de La Plata começou a todo vapor. Logo a 4 minutos, Diego Forlán alçou a bola na área argentina; Gabriel Milito, Nicolás Burdisso e também Zabaleta, não saíram do chão e Alvaro Pereira, espertamente, cabeçou direto para o gol. O que parecia ser uma fácil defesa, acabou tornando-se um rebote de Chiquito Romero, e assim, sem pena nem glória, Diego Perez - que poderia ter sido expulso logo no primeiro minuto de jogo após entrada criminosa em Mascherano - anotou a vantagem charrua em um belo carrinho . Contudo, a seleção argentina não se desesperou. Checho Batista havia voltado a seu esquema fetiche: o 4-3-3 semelhante ao Barcelona. Assim, Mascherano ficaria na contenção, para que Fernando Gago, pela direita, e Ángel Di Maria pela esquerda, ganhassem o meio campo. Lionel Messi, como nos velhos tempos, voltava a atuar na ponta direita, enquanto, Kun Agüero, abriria o campo pela ponta esquerda, para travar um duelo particular com o lateral direito do Uruguai - Maxi Pereira. E como não poderia ser diferente, Lionel Messi começava a gravitar nas costas de Martin Cacéres.


O empate blanquiceleste já era eminente. La pulga, com sua categoria ímpar, tocou pelo alto, encontrando Gonzalo Higuain, livre entre a dupla de zaga - Diego Lugano e Mauricio Victorino. O jogador do Real Madrid, com um toque sútil, desviou a bola de cabeça rumo ao fundo das redes: 1 a 1 em Santa Fé. O que se viu dali em diante foi um amplo domínio argentino. Diego Forlán e Luis Suárez se limitavam a marcar a saída de jogo, enquanto o tiki tiki argentino empurrava seus companheiros para dentro da área. O Uruguai chegou até a abusar da violência e não foi surpresa, quando o arbitro, Carlos Amarilla, mostrou o segundo cartão amarelo para Diego Perez - após o volante charrua matar o contra ataque argentino.


Com um jogador a menos, Oscar Tabárez se viu obrigado a modificar sua estrutura defensiva - até então armada em duas linhas de quatro. Alvaro Pereira e Alvaro González, que por ora atuavam pelos lados do campo - para conter as subidas dos laterais argentinos, Zanetti e Zabaleta - tiveram que se reposicionar no meio campo pois Arévalo Rios ficou sozinho na contenção de Lionel Messi. O Uruguai se segurava com a tradicional garra. A posse de bola seguia sob comando da seleção argentina, e a esperança uruguaia se limitava a bolas alçadas a area. Para sorte Uruguai, Mascherano e a dupla de centrais, seguiam cometendo faltas perto da área, e assim, no minuto final, Diego Lugano, pegando rebote, pode cabeçear no travessão; assustando a hinchada local. A segunda etapa começou com Lionel Messi, cada vez mais inspirado. Muslera seguuia negando o primeiro grito de gol do melhor do mundo .O goleiro nascido em Buenos Aires começava a vestir o traje de herói uruguaio. Higuaín também parou nas luvas do jovem arqueiro após receber outro belo passe de Messi. Pipita girou em cima de Lugano, acertando a queima roupa o arqueiro da Lazio. Aos poucos, a seleção uruguaia foi se acetando em campo. E a base do contra-ataque, acabou criando sua grande chance. Luis Suarez ganhou na corrida, e ao encarar a toda defesa argentina, acabou encontrando Diego Forlán. Contudo, a fase do melhor jogador do último mundial é mesmo de amargar, é Romero conseguiu evitar a vantagem charrua. Para aumentar a tensão, Mascherano também viu o segundo amarelo, após matar o contra-ataque armado por Luis Suárez.


A prorrogação foi coronária. Um lá e cá dos diabos se abateu sob o estádio conhecido como Cementerio de Los Elefantes. Checho Batista reorganizou o meio campo com as entradas de Lucas Biglia e Javier Pastore - nos lugares de Fernando Gago e Ángel Di Maria. Oscar Tabárez, espertamente, deixou seu meio campo ainda mais combativo, com os ingressos de Sebastián Eguren e Walter Gargano - para os lugares de Alvaro Pereira e Arévalo Rios. Mesmo assim, a seleção charrua teria duas claras chances de gol nos pés de Luis Suarez, enquanto a Argentina com Higuaín esteve a um passo da gloria, negada pela trave direita do gol defendido por Muslera. O próprio Muslera, após cobrança de Carlitos Tevez - que havia ingressado no lugar de Kun Agüero - e desvio na zaga uruguaia, acabaria decretando o empate, após sequencia impressionante de defesas arrojadas. Nos penaltis, acabaria brilhando a estrela de Muslera, que ao defender a cobrança de Tevez, carimbou a presença uruguai nas semifinais.


E o que falar da classificação venezuelana. Até mesmo Hugo Chávez - em plena luta contra o câncer na região pélvica - vibrou desde a ilha de Fidel com a conquista da seleção vinotinto. Muito de dita façanha se deve a inteligente estratégia de jogo planejada pelo jovem e marrento, Cesar Farías. A idéia venezuelana era pressionar o tridente de zagueiros do Chile, evitando o domínio do conjunto andino pelos lados do campo. A primeira linha de marcação da Venezuela tinha a Arango e Maestrico Gonzalez, combatendo os alas, Mauricio Isla e Arturo Vidal. A dupla de ataque, Fedor e Maldonado, junto do volante Rincón - mais avançado neste cotejo - pressionavam os zagueiros chilenos - Pablo Contreras, Waldo Ponce e Gonzalo Jara - forçando os mesmo aos tradicionais chutões. Sem a posse de bola e longe do gol de Renny Vega, os atacantes chilenos - Alexis Sanchez, Luis Jimenez e Humberto Suazo - assistiam ao surpreendente domínio venezuelano. Eis que aos 34 minutos, o zagueiro Vizcarrondo foi a área, e ajudado pela baixa e fraca defesa andina, encontrou a liberdade necessária para colocar a seleção vinotinto em vantagem. A dupla de volantes do Chile - Carmona e Gary Medel - seguia imprecisa, atrasando uma reação, que só chegaria, na etapa final.


Não foi a primeira vez, tampouco seria a última, então, novamente, Jorge Valdívia ingressou no intervalo - no lugar de Carmona. Gonzalo Jara também deu lugar a Esteban Paredes. O Chile voltava para a segunda etapa em um agressivo esquema 4-3-3, com apenas Gary Medel na contenção; Vidal e Isla recuados para as laterais.Valdivia e Luis Jimenez ficavam com a função de municiar o agora ponta direita, Alexis Sanchez, além da dupla de centroavantes - Suazo e Paredes. A melhora pode ser sentida logo no primeiro minuto, quando Alexis Sanchez quase anotou o gol chileno - salvo em cima da linha por Cichero. Era o começo do bombardeio. Humberto Suazo, logo em seguida acertaria o travessão. Valvidia também teve seu momento quase! ao acertar o travessão de Renny Vega em um lindo chute de três dedos. A pressão já era insustentável e em nova jogada de Alexis Sanchez pela direita, Suazo recebeu na área virando um lindo chute no angulo superior de Renny Vega - a bola ainda resvalaria no maldito travessão. O Chile tirou um pouco a marcha, e acabaria castigado, novamente em uma jogada de bola parada - marcante deficiência do futebol chileno. Arango Cobrou; Claudio Bravo soltou e Cichero só complementou: 2 a 1 e festa bolivariana. O próprio Cichero salvaria outra bola em cima da linha. O Chile ainda reclamaria de um gol mal anulado pelo trio de arbitragem do Equador. No entanto, a sorte já estava destinada e Assim, Cesar Farias, Hugo Chavez e toda a população bolivariana pode então gritar: Que culo tuvimos! estamos na semifinal.