quinta-feira, 12 de maio de 2011

Charles Bukowski. Eis um dos Poucos escritores que se enquadram na temática carpeteira. Com sua alma emputecida. A escrita ácida. O vício. O sexo. O alcool. Enfim, a vida marginal e anti-careta que este californiano - de alma - nascido na Alemanha descreveu com sabedoria em sua vasta e adorável bibliografia. Em homenagem ao Velho Safado, o trecho final de sua crônica, Sem Meias, publicada na coletânica de contos Fabulário geral do delírio cotidiano - Ereções, Ejaculações e exibicionismo.

- Buk?
- o próprio. acabo de sair da cadeia.
- sim, eu sei. aqui é a Vera.
- sua bucetuda nojenta. você chamou a policía.
- também pudera. você estava simplesmente nojento. eles perguntaram se eu queria dar queixa por estupro. eu disse que não.

Ela havia passado a corrente, mas dava pra se enxergar pela fresta da porta. a garrafa de uísque e a meia dúzia de cervejas giravam pelo corpo todo. estava de roupão entreaberto e vi um seio exuberante fazendo de tudo pra chegar em minha boca.

- Vera, meu anjo - disse - acho que a gente podia ser bons amigos. ótimos, até. eu te perdôo por chamar a polícia. me deixa entrar.
- não, não, Buk, jamais podemos ser amigos! você é uma pessoa horrorosa!

O seio continuava implorando por mim.

- Vera!..
- Não, Buk, pega o que é teu e vai embora, por favor, por favor!

Arranquei a carteira e as meias da mão dela.

- Tá legal, sua baleia, vai tomar no teu cú de bosta!
- Ooooooh! - fez ela, batendo a porta com força.

Enquanto verificava se os 35 ainda estavam na carteira, escutei um disco do Aaron Copland. que farsante. Desci pela alameda, desta vez sem escolta policial. Encontrei o carro pouco mais adiante. Entrei. Liguei o motor. Esperei esquentar. Calhambequezinho legal. Tirei os sapatos, botei as meias, calcei de novo os sapatos e aí, sentindo-me um cidadão outra vez apresentável, dei marcha a ré, saí do meio de dois carros. sem problemas, e subi pela rua escura, rumo ao norte, ao norte, ao norte...rumo a mim mesmo, à minha casa, alguma coisa. o velho calhambeque ainda dava no couro, eu também, com toda a rua pela frente, o sinal fechou, achei metade de um charuto no cinzeiro, acendi, queimei de leve o nariz, o sinal abriu, traguei, expeli a fumaça azulada, pra que perder as esperanças? sempre surgiam novas oportunidades , mesmo frustrado e voltando para o mesmo lugar.

Estranho: volta e meia deixar de foder é melhor que foder.Apesar que posso estar enganado. Em geral dizem que estou.



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